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Oportunidade da crise


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Em chinês “crise” e “oportunidade” são representados pelo mesmo ideograma ou sinal gráfico na escrita mandarim. Indica que nos momentos de maior aflição é que se abrem novos caminhos para solucionar velhos problemas. Lula declara-se disposto a “cortar na própria carne” depois de aprender que, em política, não se dá “cheque em branco” a ninguém. Mas o “doa a quem doer”, e outras frases prontas, não pode se restringir a simples remessa do Zé Dirceu para a Câmara dos Deputados onde vai cumprir com o mandato para o qual foi eleito com a ajuda de mais de seis mil eleitores bauruenses.

“O poder tem a tendência a se corromper” já dizia em 1887 o sempre citado Lorde Acton, professor de História em Cambridge. Seu pessimismo ia muito mais além quando afirmava como dogma “a geral maldade dos homens com autoridade”. Talvez por isso, no Brasil, as crises políticas e institucionais se sucedem sem que a oportunidade de mudar seja aproveitada. É muita gente mandando e cada qual com o olho gordo no bem coletivo. Sabem que este é o país da impunidade. Estão aí os exemplos de Collor e de Sérgio Naya, absolvidos; e de Jarbas Barbalho, com processos arquivados por decurso de prazos. O homem que dá calote no BNDES e deve à Previdência é guindado a ministro com a missão de fiscalizar e cobrar inadimplentes como ele. Severino Cavalcante, o rei do baixo clero, defensor perpétuo do nepotismo e da mordomia, é eleito para presidir a Câmara Federal e torna-se o terceiro homem mais importante da República, podendo chegar à chefia da Nação. A lista é longa. Chego a dar razão ao mestre Millôr: “A diferença entre o político e o ladrão é que um eu escolho e o outro me escolhe”.

É preciso que Lula se disponha, se quiser terminar o mandato, a uma reforma administrativa que reduza o custo da máquina e os olhares gulosos dos caçadores de dinheiro público. Ministros da Pesca, dos Direitos Humanos e que tais caberiam em simples departamentos. Depois, será preciso que o PT se disponha a patrocinar uma reforma política que mexa em alguns pontos cruciais do nosso sistema partidário e modernize a legislação eleitoral. Afinal, Lula foi eleito sob a esperança de mudar, acabar com os vícios que sempre criticou, e não para fazer igual ou o melhor do ruim. Temos 18 partidos representados no Congresso Nacional. O presidente eleito jamais terá maioria. O próprio PT tem somente 17% das cadeiras. Para fazer maioria e governar é preciso fazer alianças. Uma base de apoio ao Governo custa fortunas para os cofres públicos em verbas orçamentárias que precisam ser liberadas a cada votação importante. Fora os mensalões. É muito fácil criar um partido. Alguns nascem apenas para propiciar aos seus donos o acesso ao fundo partidário e ao tempo da televisão. Os eleitos são donos do mandato e do seu voto e tornam-se mercadores de apoio político. Trocam votos por cargos, verbas, favores, mesadas. O governo tem 22.638 cargos de segundo a quinto escalões de sua livre nomeação. A existência deles somente se justifica para fazer conchavos, quebrar galhos dos parentes e apadrinhar amigos.

A corrupção endêmica corrói o País desde as prefeituras. Empresários do transporte urbano, empreiteiros de asfalto e de outras obras públicas, fornecedores da merenda escolar têm que financiar campanhas dos mais propensos a ganhar, para não serem perseguidos depois. Evidentemente, a conta quem paga é o povo. Muito mais barato seria o País financiar as campanhas e fiscalizar os gastos limitados a cada partido.

Há quem pregue o Parlamentarismo como solução contra roubalheira. Se o governo perde suas bases no parlamento porque é incapaz de saciar a fome e a sede dos membros da base, o chefe de estado simplesmente dissolve o Poder Legislativo, nomeia governo interino e convoca novas eleições. Ao fazê-lo, devolve o poder ao seu legítimo senhor, o povo. Quando a crise é provocada pelo chefe do Governo, cabe ao Parlamento destituí-lo.

Qualquer solução passa pela classe política. Na fábula de La Fontaine a feiticeira Circe, amante de Ulisses, transformou os membros da corte do rei de Ítaca em porcos. Quando quis retirar os efeitos do feitiço para transformá-los novamente em homens, optam por permanecer na pele dos leitões para continuarem chafurdando a lama.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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