Uma parte dos trabalhadores brasileiros não se desliga do serviço ao vencer o expediente diário. Uma outra jornada, regada com muita expectativa, se inicia após chegarem em casa, que, no caso, tem o mesmo endereço do emprego. São homens e mulheres que ficam à disposição das empresas, prontos para intervir quando chamados. Eles estão plugados 24 horas no serviço.
Mas nem por isso reclamam. Em alguns casos, a família é sacrificada. O servidor municipal Ademar Fernandes de Campos Júnior, 34 anos, dos quais 15 na prefeitura, é zelador do Estádio Distrital Horácio Alves há 12 anos. Casado, pai de dois filhos (uma menina de 15 anos e um menino de 11), Campos explica que sua rotina de trabalho é normal mesmo residindo no local de serviço.
É de sua responsabilidade a manutenção do campo de futebol e dos equipamentos que compõem o distrital. O local é bastante freqüentado pelos moradores do Jardim Bela Vista e Parque União, que diariamente caminham pela pista que emoldura o gramado.
“Pelo fato de residir aqui, já fiz amizade com todo os freqüentadores. Na verdade, trabalho de segunda a segunda, principalmente nos finais de semana, quando o distrital abriga os jogos do campeonato amador”, conta. Os filhos cresceram acompanhando a rotina de trabalho do pai.
“O menino, hoje com 11 anos, tem paixão por bola e por jogo de futebol”, diz. Mas nem tudo é flor no dia-a-dia de Campos. “Com muito jogo de cintura, tenho que contornar situações. Tem gente que pensa que é dono do distrital. Nesses 12 anos que moro aqui, criei minhas próprias regras. E todos respeitam”, garante.
Embora não more totalmente de graça na casa do distrital - é descontado 10% de seu salário a título de pagamento do aluguel -, o zelador reconhece que pagaria muito mais se tivesse que alugar um imóvel. Os benefícios existem, mas os percalços também. “Eu fico preso nos finais de semana. Só posso me ausentar nas férias. A família reclama um pouco, mas por outro lado também entende que esse é meu serviço”, observa.
Considerado o “pulmão verde” de Bauru, o Horto Florestal - uma área de 20 alqueires detentora de uma flora diversificada - também abriga na sua mata um grupo de servidores residentes. João Gonçalves é o mais antigo morador do local. Ele literalmente nasceu no horto numa época em que as parteiras ainda eram as “obstetras de plantão”.
Aos 61 anos de idade, Gonçalves herdou do pai, Brasilino Gonçalves, a missão de continuar zelando pelas terras do horto. “É um prazer morar aqui. Tenho boas lembranças de minha infância: estilingue, bolinha de gude, peão, caça”, relata. A família, porém, se sente um pouco incomodada. “Minha mulher e meus filhos reclamam da lama e da poeira”, conta.
O servidor público estadual comenta que mesmo no final de semana fica atento à movimentação no interior do horto, principalmente na época da seca, quando incêndios surgem sorrateiramente. “Todos nós que moramos aqui ficamos alertas nos finais de semana. As invasões ocorrem em qualquer lugar do País”, observa.
História similar a de Gonçalves tem o engenheiro agrônomo José Carlos Nogueira. Ele reside no horto desde maio de 1960, portanto há 45 anos. “Desde criança, sempre gostei de mexer com as coisas da natureza. Morar aqui no horto é um privilégio”, afirma. Pai de quatro filhos, ele diz que “os meninos” não poderiam ter tido infância melhor.
“Nunca reclamaram. Todos cresceram se familiarizando com bichos e com a flora. Tanto é que dois deles se formaram biólogo e engenheiro agrônomo”, informa. Sua esposa também não tem do que reclamar. “Quando nós éramos noivos, caçávamos e pescávamos praticamente todo final de semana. Não sei como vou me comportar quando sair daqui”, comenta.
O mesmo ritmo de vida tem a servidora pública estadual Nely Angélica Cano, só que cercada por uma “selva de pedra”. Ela é a zeladora do prédio da Diretoria Regional de Ensino (DRE), localizado nos altos da Vila Falcão. “O lado bom de morar na casa da Divisão Regional é a economia do dinheiro do aluguel e do transporte, além da facilidade de estar rodeado de tudo aquilo que você precisa”, observa.
Ela assumiu a zeladoria do prédio há três anos. “Sabia que teria que estar disponível as 24 horas do dia. Por isso, não posso reclamar”, conforma-se.