Há alguns anos, Miguel Gonçalves da Silva, amigo querido que se foi e deixou uma saudade imensa de sua cultura, inteligência e sensibilidade, me presenteou com um livro cujo título utilizo para o artigo de hoje. Escrito por Roger Garaudy, o livro denuncia “a ilusão que nos faz considerar o Ocidente como único gerador dos valores humanos”.
Convidado a ministrar uma palestra sobre “História da Medicina Árabe”, voltei a ler o texto de Garaudy e redescobri muitas coisas interessantes e extremamente adequadas a esse nosso período de “globalização”, que o filósofo francês Alain Touraine não hesitou em definir como sendo nada mais do que aquilo que em outras épocas chamávamos de “imperialismo”.
Mergulhar no texto de Garaudy é um deleite que sugiro ao leitor. Além da linguagem clara, de informações interessantes, que nos têm sido sonegadas por puro preconceito ou pela crença pretensiosa de que a humanidade se restringe ao mundo ocidental, o autor dá ênfase à necessidade de corrigir o erro básico de nossa civilização “moderna”: a colocação dos bens materiais acima dos bens do espírito e da alma, do “ter” mais que o “ser”, do consumismo desenfreado e da hipocrisia de um mundo que fala em bondade, fraternidade, amizade e respeito, mas exerce a competição bruta e selvagem do domínio material a qualquer preço.
Ler “O Ocidente é um acidente” reforça a certeza de que somente resolveremos os problemas de violência e desamor, que afligem a nós todos, quando passarmos a perceber que as raízes desses problemas estão dentro de cada um e são conseqüências dos princípios culturais podres que nos são ensinados ao longo da vida, baseados na busca contínua de uma noção de felicidade que se compra, que se consegue com dinheiro e com poder material. É preciso rever tudo isso, antes que seja muito tarde.
O autor, Isac Jorge Filho, é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo