Aconteceu na velha Grécia, no tempo das Cidades-Estado. Na República Pragmática. Um dia, há muito, um grego dormiu e sonhou. Sonhou com a Ética. Ao despertar, deu-se conta da dura realidade que o cercava, reuniu os cidadãos de sua cidade e lhes descreveu entusiasmadíssimo o sonho maravilhoso que tivera. Nem todos reagiram conforme suas expectativas.
Alguns, impacientes, deixaram-no sem mesmo ouvir o final da história. Houve quem achasse o assunto perigoso demais para tratá-lo de forma tão aberta e, discretamente, se afastasse do grupo. Outros ficaram até o fim polidamente, mas sem ouvir. Muitos ouviram atentamente, mas nada entenderam. Comentou-se a hipótese de que nosso amigo grego tivesse perdido o juízo... Aquela história não tinha pé nem cabeça... Teve um que pediu a palavra para comentar um caso parecido: o daquele ateniense que sonhara com a Utopia.
Na praça ficaram alguns poucos fascinados pelo sonho. Queriam ouvir mais, inteirar-se dos detalhes. Puseram-se logo a sonhar acordados. Veio-lhes a certeza de que deste sonho partisse o caminho para verdadeiras mudanças. Com a Ética, deixaram a cidade e tomaram juntos a estrada. Nunca mais voltaram.
Tantos anos passados, hoje eles deverão estar muito longe. Um dia, quem sabe, eles passarão por aqui.
Quem os viu recentemente? Onde?
O autor, José Luiz Gomes do Amaral, é presidente da Associação Paulista de Medicina e vice-presidente da Associação Médica Brasileira