Durante dez dias, a rotina da rua C-2 do Parque Jaraguá mudou por completo. Em pouco mais de uma semana, os moradores até começaram a falar em inglês. A mudança iniciou quando 11 voluntários norte-americanos foram ao bairro para levar alimentos, agasalhos e brinquedos a mais de cem crianças e a cerca de 30 famílias. Hoje, será o último dia de trabalho. “Já estamos tristes”, diz a dona de casa Jorgina Alves.
O grupo, da cidade de Davis, Califórnia, pertence a uma igreja americana, que todos os anos visita pessoas carentes de diferentes países para desenvolver trabalhos sociais. A visita ao Jaraguá, primeira no Brasil, ocorreu a pedido de Sandreia Vianna, fotógrafa brasileira que conheceu o grupo quando morou fora do Brasil e sabia da situação dos moradores do Parque Jaraguá. “Fiquei impressionada com a família da Telma que, com tão pouco, cuida de quase dez pessoas”, conta Vianna.
A casa de Telma Cristina Estanquini de Jesus se tornou a referência da rua nestes dez dias. Já conhecida no bairro por distribuir sopa para idosos e crianças duas vezes por semana, a residência foi ponto de encontro para o trabalho dos voluntários.
No local, os jovens norte-americanos ajudaram a reformar a igreja que funciona atrás da casa de Telma e trabalharam na horta mantida por ela, usada como fonte de renda da família e de outros moradores do bairro. “Recolhemos lixo, visitamos casas, levamos roupas, medicamentos, brinquedos e brincamos com as crianças nas ruas”, completa Vianna. Além das doações, os voluntários ensinaram noções de higiene, de organização e de qualidade de vida.
Após visitar países como Egito, Kosovo e França, o responsável pelo grupo, Jonatham Zachariou, diz ter ficado admirado com a união dos moradores do Jaraguá. “Eles não têm medo de trabalho. Tudo aqui pode ser feito com muito pouco. Nós trouxemos alegria e agora eles têm a esperança de ter um amanhã”, conta.
Mesmo sem falar português, Zachariou e os demais voluntários conseguiram passar a mensagem. Além da ajuda de Sandreia e de seu marido, João Orestes, os sinais serviram de comunicação. “As mãos falam”, diz o voluntário Logam Wilson, enquanto ajudava a tirar a lama que assoreou a mina de água próxima à horta da casa de Telma.
Resultados
Para os voluntários, a experiência serviu para conhecer uma realidade diferente e para saber que novas visitas serão necessárias. Para os moradores, a iniciativa inédita agradou a todos, mas principalmente as crianças. Sem saber encontrar as palavras certas, as crianças respondiam com um sorriso à pergunta do que mais gostaram.
Mais extrovertida, Pâmela Aparecida Leal, 10 anos, começou: “Ganhei uma bola, aprendi a jogar vôlei, a dançar”, conta, agarrada ao braço de Sandreia. “E de cantar músicas em inglês”, concluiu Ingrid Andreia, 11 anos.
Vencidas as resistências dos moradores, receosos da aproximação do grupo, Sandreia ficou satisfeita com os resultados. “No começo, as crianças estavam distantes. Mas agora, vemos a diferença. Sabemos que isso vai marcar o futuro delas.”
Despedida
Após os dez dias de convivência, voluntários e moradores se preparam para a despedida. Além das inúmeras cartas escritas pelas crianças, os voluntários irão levar um presente especial. André Cristiano Baptista, 21 anos, vive das pipas que confecciona e fez duas especialmente para o grupo. “É um presente para não esquecerem mais de mim”, diz.
Segundo Sandreia Vianna, que trouxe os voluntários ao bairro, o grupo deve voltar em setembro. Depois de Bauru, o grupo vai para São Paulo e, em seguida, para Grécia.