Geral

PS Central absorve demanda do Mary Dota e do Ipiranga

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 4 min

Depois de quase dois anos de impasse, a Prefeitura de Bauru desativou oficialmente os prontos-socorros dos Núcleos Mary Dota e Ipiranga. Ontem, no primeiro dia após o fechamento destas unidades, houve aumento na demanda do Pronto-Socorro Central (PSC), mas o movimento foi considerado dentro das expectativas.

Usuários da rede presentes ao PSC ontem pela manhã reclamaram do deslocamento, mas admitiram que o atendimento nas unidades desativadas já vinha sendo precário há alguns anos.

“A gente acha ruim por um lado, porque fica mais difícil chegar até aqui. Mas por outro lado, lá (Mary Dota) quase nunca tinha médico e a gente acabava tendo que vir para cá”, comenta a dona de casa Adriana Cristina da Silva de Souza, 28 anos.

Ela lembra que a unidade era muito boa na época de sua inauguração. “Sempre tinha médico e estrutura. Mas ultimamente não tinha mais, principalmente pediatra. Sem contar que se fosse preciso fazer um exame, uma radiografia, tínhamos que vir para cá e voltar lá. Agora, pelo menos, está tudo aqui”, pondera.

Para o pedreiro João Batista Pereira Lopes, 28 anos, usuário do Pronto-Socorro no Núcleo Ipiranga, a desativação era inevitável. “Do jeito que estava, não dava mais. Quase nunca tinha médico”, destaca.

A dona de casa Andréia Aparecida Lima de Oliveira, 32 anos, também não encontrou pediatra ontem no Pronto-Socorro do Jardim Bela Vista e teve de recorrer ao PSC. “Acho tudo isso uma afronta ao eleitor, ao cidadão que paga seus impostos e cumpre com suas obrigações. Confiamos nosso voto a uma pessoa que prometeu saúde e educação e a primeira coisa que ele faz é fechar os prontos-socorros”, critica.

Na opinião dela, a restruturação da rede precisa começar pela melhor remuneração dos médicos. “Tenho uma amiga que paga R$ 2,5 mil por mês para a faculdade de medicina. Ninguém que paga isso vai querer ganhar R$ 1.000 de salário. Aí eu pergunto: foi para isso que municipalizaram a saúde? E eu não acredito que essas unidades voltem a funcionar. Tirou uma vez, nunca mais”, acrescenta.

Inversão necessária

Em entrevista ao Jornal da Cidade, a secretária municipal de Saúde, Tereza Feifer, reforça que o fechamento das unidades descentralizadas de atendimento em urgência e emergência foi uma medida necessária. “Temos um modelo equivocado na assistência à saúde, que privilegia o atendimento de urgência, ao invés de investir na saúde básica. Precisamos inverter esses valores”, argumenta.

Ela explica que o número de atendimentos realizados nos prontos-socorros de Bauru equivale a três vezes o índice de consultas por pessoa estimado pelo Ministério da Saúde. “Em contrapartida, na rede básica, nós temos um número insuficiente de consultas: um terço do que determina a portaria do ministério”, afirma.

Segundo a médica, o fechamento das unidades descentralizadas é o primeiro passo num projeto de reordenação da rede pública municipal de saúde. “O problema é que estamos trocando o pneu de um carro em movimento. Temos que ir contratando médicos para a rede básica ao mesmo tempo em que equacionamos essa demanda exagerada da urgência e emergência e faremos isso até conseguirmos inverter esse modelo”, afirma.

Feifer reforça que o caminho para melhorar a rede básica de saúde é investir em equipes de saúde da família e agentes comunitários. “Marília tem hoje 27 equipes de saúde da família e Jaú acaba de conseguir autorização para formar a sétima e a oitava equipe. Bauru só tem uma e não temos dinheiro para investir em outras, porque 52% do nosso orçamento estão sendo empregados nos prontos-socorros”, observa.

Ela destaca que, com isso, sobra pouco para investir na promoção de saúde (rede básica), o que acaba gerando problemas éticos. “Saúde não se faz em prontos-socorros. Saúde se faz com prevenção, promoção e isso é papel da rede básica (...) A população está com essa sensação de perda, mas perdem o que já não tinham, porque essas unidades já não tinham médicos 24 horas e sem médicos não há como fazer manobras de sustentação da vida”, encerra.

____________________

Atenção às mudanças

• Adultos em situação de urgência e emergência (acidentes, mal-estar súbito, febre repentina e alta) devem ser encaminhados diretamente ao Pronto-Socorro Central (PSC) ou Pronto-Socorro Bela Vista, que funcionam 24 horas

• Crianças em situação de urgência e emergência devem ser encaminhadas imediatamente ao Pronto-Atendimento Infantil (PAI), que funciona 24 horas. O atendimento pediátrico nas demais unidades só será feito com agendamento prévio

• As unidades Mary Dota e Ipiranga reabrem amanhã, das 7h às 21h. Nas demais unidades de saúde, o horário de funcionamento permanece inalterado

• Uma ambulância será mantida nas unidades Mary Dota e Ipiranga durante todo o dia. Após as 21h, as viaturas serão transformadas em bases do Samu. Em caso de urgência, basta ligar 192. A prefeitura pede para a população não comparecer às unidades após as 21h.

Comentários

Comentários