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A dignidade da velhice


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Na fila do banco o boy atrás de mim me cutucou: “é a sua vez, patrão”. Havia outras cinco pessoas na minha frente. Como poderia ser a minha vez? O funcionário do caixa fazia acenos com a mão para que alguém se apresentasse rapidamente. Era um guichê destinado a idosos, mulheres grávidas e incapacitados físicos. Custei a perceber que o idoso chamado para a ponta da fila era eu. Só então me dei conta de ter chegado ao tempo dos “privilégios” que a sociedade igualitária concedeu aos velhinhos forçada pelas leis e regulamentos. Ainda não me refiz do choque, eu que já tinha me acostumado a vários e traumáticos ritos de passagem para a maturidade: dos 40, quando em crise se entra pela primeira vez nos “enta”; dos 50, quando, deprimido, se sente que jamais se vai fazer outros 50 (a gente acha que pode chegar aos 80, mas não aos 100), e dos 60, quando um eufemismo (maneira de substituir uma expressão mais apropriada por outra mais suave) diz que a gente entrou na “terceira idade”. Nunca me passou pela cabeça uma outra passagem, um outro marco aos 65 anos. E, muito menos pensei que viesse a ser chamado tão cedo de “idoso”, ainda mais numa fila de banco. No seu “Diário do Exílio” Trotsky anotou que “a velhice é a mais inesperada das coisas que acontecem a uma pessoa”. Mas, exijo respeito: prefiro ser chamado de velho que de idoso. Ridículos esses eufemismos idealizantes de “terceira idade”, “suavidade”, etc. Nem terceira e nem quarta. Velhice é velhice. É aquela conjuntura em que o médico e o dentista são sempre mais jovens que o paciente (e não merecem, por isso mesmo, a menor confiança) e em que muitos praticantes de auto-sugestão exclamam diante do espelho: “nunca me senti tão jovem!”

A sabedoria consiste em envelhecer com dignidade e realismo, segundo Olavo Bilac num soneto conhecido: “Não choremos, amigo, a mocidade!/ Envelheçamos rindo”, assim imitando as velhas árvores que continuam dando sombra. O poeta tinha então 38 anos, idade em que não custa recomendar aos outros que envelheçam sorrindo. “A boa idade é a última idade. Bendita a idade austera e nobre a que chegamos. Mas que saudades das horas loucas da mocidade” - versejava outro parnasiano ilustre, Alberto de Oliveira.

Lembrei-me do dia em que fui acordado pelas minhas filhas porque fazia 60 anos. “Isso é uma sacanagem”, disse a mim mesmo, “eu não mereço”. Todo mundo quer viver muito tempo mas ninguém quer ficar velho. Há poucos dias, ao revelar minha idade uma jovem aluna me disse, toda gentil: “ninguém lhe dá isso...” Respondi que, em matéria de idade, o triste é que ninguém precisa dar para você ter. Retribui a gentileza sacando um versinho do Mário Quintana: “Velhice é quando um dia as moças começam a nos tratar com respeito e os rapazes sem respeito algum”. Claro que a velhice deve ter outras vantagens além do privilégio na fila do banco. Só resta agora descobrir quais são elas.

Ao sair do banco um indivíduo me abordou com proposta de empréstimo consignado em folha do INSS. Seria essa um privilégio para os aposentados? Se fosse bom negócio para os tomadores os bancos não gastariam tanto em publicidade na televisão. Milhares já caíram nessa tentação do empréstimo para comprar algum bem supérfluo, o computador para o neto ou, simplesmente parar quebrar o galho do genro endividado. É um crime. Não existe juros menores de 7% ao mês, somadas as “despesas”. Os velhos vão ficar sem dinheiro sequer para os remédios e genro e netos não vão acudir.

Tirante esse abuso, a verdade é que, graças aos avanços da gerentologia, não se fazem mais velhos como antigamente. Os de hoje são mais jovens. Norberto Bobbio, notável cientista político italiano, falecido quase centenário teve uma frase anticlimática: “quem louva a velhice não a viu de perto”. Faz sentido com a historinha que o Ary Garcia conta do Margarido, famoso advogado desta comarca. Todo sábado, na Batista, aparece um velhinho torto, cego de um olho, vestido em farrapos, para pegar um dinheirinho que o Raduan Trabulsi lhe reserva há anos. Margarido, quando via aquela fronte desfolhada pelo tempo bradava como Anacreonte: “a velhice é uma indignidade”. O advogado morreu há muito e o velhinho, todo sábado, aparece na porta da Márcia Jóias e ali permanece no banco do calçadão, quietinho, até que o ato caridoso o contemple.

O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC

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