Tribuna do Leitor

Elogio à ditadura?


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No dia 30 de junho, o leitor Roberto Di Ruzze teve publicada nesta coluna a carta “Que país é este?”. O texto, uma “ode” ao regime militar, tenta colocar a política das casernas como algo positivo para o Brasil, esquecendo-se que muito do que sofremos hoje é fruto dessa época nefasta. No período militar, de 1º de abril de 1964 a 15 de março de 1985, a imprensa esteve sob rígida censura. Com isso, pouco ou nada que afrontasse os governantes era divulgado. Somente “coisas positivas” tinham espaço nos jornais. Ainda assim, parte da imprensa conseguia furar o bloqueio verde-oliva e tentava mostrar que o Brasil não era um país que ia pra frente, como cantavam os imbecis Dom e Ravel; na verdade, andava para trás, com assassinatos, endividamento externo crescente e submissão às ordens do FMI. A corrupção também não podia estampar as páginas dos jornais. O risco era de morte aos jornalistas.

Para quem pensa que a época da ditadura era linda e maravilhosa, destaco alguns títulos de matérias publicadas pela Folha de S. Paulo durante os tenebrosos anos de chumbo (e havia censura nas redações).

“Carne aumenta pela sexta vez em 30 dias”- 11/10/1967

“Congresso da UNE: todos presos” – 13/10/1968

“Custo de vida subiu 8,6% na Guanabara” – 13/09/1973

“Os deputados vão estudar falta de leite” – 24/09/1973

“Presos 1.000 na PUC”- 23/09/1977

“Combustíveis vão aumentar 24% em média” – 20/07/1979

“Imposto Predial cresce até 300% no próximo ano” – 03/09/1980

“Amanhã, tarifa dos telefones 20% mais cara” – 31/03/1981

“IBGE fixa em 40,9% o INPC para novembro”- 07/10/1981

“Brasil conclui o acordo com o FMI”- 16/12/1982

“Pedágio tem aumentos de até 233%” – 02/09/1983

Portanto, antes de elogiar a ditadura militar, mais e aprofundadas informações sobre aquele período sombrio devem ser buscadas. Também é necessário entender que nenhuma análise sociológica, política, econômica, etc, pode ser feita de forma entrecortada, descontextualizada. Senão, daqui a pouco os mesmos que elogiam o regime militar brasileiro estarão elogiando Hitler, que reduziu (e muito) o desemprego na Alemanha; só que, ao mesmo tempo, assassinou milhões de judeus, comunistas, homossexuais, portadores de deficiência física, etc. Sob a batuta de Hitler, havia ordem, progresso e a corrupção aparentemente inexistia: claro, a imprensa também era censurada.

Atualmente, acreditar que o governo militar brasileiro era “um mar de rosas” é esquecer, por exemplo, que um de seus maiores expoentes foi Paulo Maluf, nomeado prefeito de S. Paulo e governador do Estado de S. Paulo pelos militares. Também Fernando Collor teve boa parte de sua carreira política orientada pelas diretrizes do regime da farda. Não é preciso dizer mais nada. Por fim, elogiar a ditadura militar é uma afronta a quem luta por justiça social, democracia de fato e liberdade. Ofende ainda a memória de todos os assassinados nos anos de chumbo, como o jornalista Vladimir Herzog, morto covardemente pelos militares em outubro de 1975.

Marcos Silvestre, jornalista e diretor do Sindicato dos Bancários de Bauru e Região

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