Um ano após iniciar o serviço de captação de córneas, o Hospital Estadual de Bauru (HE) anunciou ontem que também está credenciado a transplantar esses órgãos em seus pacientes. O primeiro transplante foi realizado no início deste mês em uma mulher de 73 anos, que reside na zona rural de Bauru.
Maria Isabel de Sá se recupera bem da cirurgia no olho direito e amanhã deve iniciar o processo de retirada dos pontos, que pode demorar alguns meses até ser concluído.
O anúncio oficial deste novo serviço que passa a ser prestado aos pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) foi feito ontem pelo diretor-executivo do HE, Emílio Carlos Curcelli.
De junho de 2004 até agora, o hospital já coletou 130 córneas, o que representa 65 doadores. Segundo informou a assessoria de imprensa da instituição, uma equipe vem trabalhando na tentativa de obter doadores a cada óbito registrado.
Os funcionários abordam a família do paciente que morreu e perguntam se há ou não interesse em fazer a doação das córneas. Em caso de uma resposta negativa, o hospital não insiste e respeita a decisão da família, segundo a assessoria.
Os órgãos coletados são encaminhados ao Banco de Olhos de Ribeirão Preto pela Polícia Rodoviária. Lá as córneas são preparadas para o transplante e em seguida são destinadas a um receptor compatível.
Os transplantes obedecem a uma fila única de espera, mas nem sempre o primeiro da fila é o contemplado. Se a córnea coletada não for compatível com o primeiro paciente da fila de espera, passa-se para o segundo e assim sucessivamente até encontrar um receptor compatível.
Isso faz com que o tempo médio de espera para um transplante seja relativo. Segundo explica a assessoria, enquanto alguns pacientes esperam meses para receber uma córnea, outros aguardam anos.
A lista de espera inclui receptores de todo o Estado de São Paulo. De acordo com o diretor-executivo do hospital, existem 4.825 pessoas à espera de um transplante de córnea no Estado. Desse total, 153 são da região de Bauru, incluindo Botucatu. No Hospital Estadual de Bauru existem seis receptores cadastrados.
Segundo Curcelli, nos últimos três anos foi possível notar uma conscientização maior da população quanto a importância da doação de órgãos. Se esse movimento continuar ganhando força, ele acredita que dentro de um a dois anos será possível zerar a fila de receptores. Na opinião do diretor, se houvesse uma infra-estrutura hospitalar para captação de córneas um pouco melhor, o quadro poderia ser mais favorável.
No Estado, são poucas as cidades que possuem hospitais aptos a realizar transplantes. Em Bauru, além do HE, o Hospital de Base também realiza o serviço.
Agora que o Hospital Estadual obteve credenciamento para a realização do transplante de córneas, a tendência natural, segundo informou a assessoria, é que a instituição consiga aos poucos ampliar as opções e começar a transplantar outros órgãos, como rim, fígado e coração, entre outros.
O anúncio sobre o início dos transplantes de córneas no HE foi feito durante uma sessão comemorativa, ontem de manhã, por ocasião da instituição estar completando um ano de captação de olhos.
O evento reuniu famílias de doadores e representantes das organizações envolvidas nos processos de captação, notificação, distribuição e transplante. Estiveram presentes também policiais rodoviários e equipes especializadas do Hospital Estadual.
Além de prestar homenagem a essas pessoas, a sessão comemorativa também teve como objetivo estimular o debate em torno da importância da doação de órgãos, ainda considerado um tabu em algumas famílias.