Saúde

Ataque noturno à geladeira

Michelle Roxo
| Tempo de leitura: 6 min

São três horas da madrugada em ponto quando a manicure Tânia Francisco Giatiani, 35 anos, acorda e caminha da cama em direção à geladeira. Ingere alimentos calóricos, como os pedaços de lasanha fria que sobraram do almoço passado; ou alimentos pouco habituais, como um pão francês com pedaços de doce de leite. Compulsivo, o ritual se repete quase diariamente, provocando na manicure culpa e mal-estar. Durante o dia, entretanto, ela tem alimentação moderada e ingere poucas calorias.

“Eu como pouco. O meu problema é de madrugada. Parece que sou um relógio: às três horas acordo e vou atacar a geladeira. Como o que tiver e parece que tenho que comer até o fim. É algo que não consigo controlar”, diz a manicure, lembrando que o problema começou há seis anos.

Tânia apresenta alguns sintomas do que os especialistas têm denominado como Síndrome do Comer Noturno (Nigth-eating Syndrome) - doença que estaria relacionada a algum distúrbio do sono, de causa ainda desconhecida.

Os pacientes com esta síndrome, em geral, são pessoas que comem moderadamente durante o dia e ingerem grande quantidade de alimentos calóricos na madrugada, como doces e massas. Além da compulsão noturna por alimentos, a falta de apetite durante a manhã e insônia são sintomas característicos (leia mais no texto abaixo).

O primeiro caso da doença foi descrito em 1955 pelo psiquiatra Albert Stunkard, estudioso de compulsão alimentar. O psiquiatra foi um dos integrantes de um grupo de discussões sobre a síndrome, durante o Congresso de Medicina do Sono, realizado no mês passado no Colorado, EUA.

O neurologista e neurocirugião de Bauru, Alberto Luiz Moura dos Santos, diretor geral do Instituto de Medicina do Sono, também acompanhou as discussões no evento e afirma que essa síndrome até pouco tempo não era considerada uma doença específica, sendo relacionada a outros problemas de ordem emocional e psicológica.

“Acreditava-se que essa síndrome fazia parte das depressões, das ansiedades. Às vezes, era relacionada a anorexia nervosa, bulimia. Agora, com todas as pesquisas que foram feitas, especialmente nos EUA, foi observado que essas pessoas, que acordam no meio da noite para comer compulsivamente e depois voltam a dormir, apresentam uma síndrome específica, chamada Síndrome do Comer Noturno”, diz o neurologista, que acredita que o problema tenha causas física e química.

Moura lembra que esse excesso de fome ocorre apenas durante o período do sono e não em outras horas do dia, como nos casos de pacientes que sofrem de bulimia.

“Por que a pessoa acorda para comer? Por que o problema acontece só durante o sono?”, questiona o neurologista, justificando o porquê da síndrome estar relacionada à medicina do sono.

A compulsão alimentar noturna abala o ciclo e a qualidade do sono, desordenando o relógio biológico das pessoas. Com o tempo, a maioria dos pacientes começa a ganhar peso. Esse foi o caso de Tânia, que engordou, nos últimos dez anos, cerca de 30 quilos.

“Segundo a estatística de um serviço americano de tratamento de obesidade, coordenado pelo doutor Stunkard, na Pensilvânia, 10% dos obesos que procuram esse serviço têm a Síndrome do Comer Noturno. Então, não é só um problema de ansiedade ou hormonal”, destaca o neurologista de Bauru.

Durante o dia, segundo ele, o paciente sofre as conseqüências, características de uma pessoa que dormiu mal, como irritabilidade, dificuldade para trabalhar, cansaço, diminuição do humor e depressão. Tânia relata que, depois do excesso de alimentação durante a madrugada, sofre de insônia e amanhece com mal-estar e dores de cabeça.

Até pouco tempo, segundo Moura, o tratamento dessa compulsão não era bem definido. No congresso dos EUA, entretanto, foi apontado que medicamentos antidepressivos em baixa dose, principalmente a Sertralina, têm apresentado em cerca de duas semanas resultados positivos. Normalmente, lembra Moura, os antidepressivos demoram de três a quatro semanas para fazer efeito no tratamento específico das depressões.

“Se fosse uma depressão, a dose que é utilizada no tratamento não resolveria. O medicamento deve agir de maneira diferente (nos casos da Síndrome do Comer Noturno), regulando algum mecanismo no cérebro relacionado ao sono”, destaca.

Há também tentativas de tratamento da síndrome por meio de terapia comportamental, visando diminuir os níveis de ansiedade do paciente à noite e estimular a criação de novos hábitos alimentares. Entretanto, a administração do antidepressivo tem sido hoje o tratamento de melhor resultado.

“Geralmente, depois de seis meses, os médicos tentam suspender a medicação. E, em muitos casos, há melhora. Lógico que esse tratamento foi definido como o principal agora. Teremos que ver nos próximos anos como isso vai evoluir”, diz o neurologista.

Causa desconhecida

Quando a Síndrome do Comer Noturno é tratada com acompanhamento médico, de acordo com Moura, o paciente volta a dormir normalmente e consegue, em geral, perder peso.

Entretanto, a origem do problema ainda é desconhecida. “Por que a Sertralina melhora isso? Não se sabe direito. Agora, existe um grupo de pessoas que apresenta essa síndrome bem definida”, diz.

Moura não acredita que o desenvolvimento da doença esteja relacionado a hábitos alimentares incorretos adquiridos, por exemplo, na infância. “Se fosse só hábito, a situação do paciente não melhoraria com doses baixas de antidepressivo”, observa.

A Síndrome do Comer Noturno foi apontada como distúrbio do sono, segundo a classificação internacional de doenças do sono, datada de 1990. “Apesar disso, muitos discordavam dessa classificação. Psiquiatras achavam que seria uma depressão e não uma doença específica. Mas, agora, ela está sendo definida como uma doença relacionada ao sono”, destaca o neurologista.

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Alguns sintomas

• Come mais durante a madrugada do que nas refeições do dia;

• Apresenta pouco ou nenhum apetite no café da manhã;

• Ingere durante a noite alimentos calóricos, carboidratos, açúcar e amido;

• Sente tensão, ansiedade ou culpa depois que come durante a madrugada;

• Apresenta dificuldades para começar a dormir; acorda freqüentemente e nessas ocasiões ingere alimentos;

• O comportamento não se refere a um episódio isolado; ocorre continuamente.

Fonte: HealthyPlace.com - Eating Disorders Community

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