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Filhos querem mandar cada vez mais

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 5 min

Não é preciso pesquisar muito para confirmar que crianças e adolescentes estão cada vez mais autoritários dentro de casa. Rebeldes, birrentos e desobedientes desde muito cedo, eles deixam seus pais desorientados e trilham um caminho que poderá lhes trazer enormes decepções e problemas ao longo da vida.

Os jovens de hoje são criados num momento importante de transição. Seus pais não querem repetir o modelo repressor de gerações passadas, mas também não podem ser tão permissivos como na época do “paz e amor”.

Perdidos entre dois extremos, muitos não conseguem o devido domínio sobre os filhos e constroem situações de sofrimento para ambos os lados.

“Esse desejo pelo poder é inato ao ser humano. É natural que a criança queira sempre testar seus poderes, assim como seria natural que o adulto mostrasse seus limites”, explica a psicóloga Marly Rodrigues Bighetti Godoy, especialista em psicoterapia infantil e de família.

Segundo ela, esses testes de poder começam ainda no berço. Quanto mais “vitórias” a criança tem, mais poder ela vai querer. E quanto mais tempo os pais demorarem para começar a impor limites, maior será o sofrimento da criança diante do primeiro “não”.

Professora do departamento de psicologia da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, Tania Gracy Martins do Valle salienta que a vida em sociedade gira em torno de direitos e deveres e que é em família que a criança deve conhecer e entender esses limites.

“A família é um grupo social e todo grupo tem regras. Para estabelecer essas regras é preciso ser líder. Vai ser líder aquele que for mais preparado. Pai e mãe não podem abrir mão dessa liderança e quanto mais coerente for o líder, mais coerentes serão as crianças”, afirma.

Flexibilidade

Valle defende, no entanto, que a liderança dos pais deve ser democrática. Toda regra deve vir seguida de uma explicação. Se algo não pode, o filho tem o direito de saber porque não pode. Se algo tem que ser feito, os pais devem esclarecer porque tem que ser feito.

Da mesma forma, ela sugere que as normas sejam flexíveis, que possam ser negociadas. “Não é justo, por exemplo, você determinar que um filho lave toda a louça do jantar todos os dias, enquanto os outros estão vendo TV. É interessante haver um rodízio de tarefas. Assim como é importante se estabelecer um prazo: lavar a louça até a hora de dormir, por exemplo. Ou, ainda, fazer junto, mostrando as vantagens da cooperação”, destaca.

Outro item importante citado pela psicóloga é que as regras têm que valer para todos. Por isso, é importante avaliar se todos podem cumpri-la antes de torná-la oficial. “Se você determina que cada um arrume a sua cama e tem um filho de 3 anos, tem que deixar combinado que você ou outra pessoa ficará incumbida de arrumar a dele e apontar o porquê”, reforça.

Valle salienta que a criança é produto do meio em que vive. Ela vai reproduzir por toda a vida e em todos os lugares o que vê e vivencia dentro de casa. “Então, os pais têm que estar sempre se auto-avaliando. Têm que ver, por exemplo, como tratam os próprios pais. Se a criança vê os pais sendo tiranos com os avós, ela vai entender que pode ser tirana com os pais também”, adverte.

'Eles têm direito à cara feia', diz psicóloga

Saber lidar com a reação dos filhos diante de uma ordem ou de uma negação é um dos maiores desafios para os pais no dia-a-dia. Muitos adultos recuam diante de um choro, de uma ameaça ou mesmo de uma simples cara feia. A psicóloga Marly Rodrigues Bighetti Godoy salienta que, geralmente, é nesse recuo que crianças e adolescentes encontram uma brecha para tornarem-se rebeldes e autoritários dentro de casa.

“Se seu filho quer uma coisa e você não dá, ele tem o direito de chorar, ficar amuado, fechar a cara. Acontece que muitos adultos não suportam essas reações e começam a ceder. Isso não é bom para a criança. Não é fácil dizer não, mas se você tem razões para isso, tem que conversar, ouvir os contra-argumentos, explicar, mas sustentar o seu não”, alerta.

E quanto mais cedo os limites são impostos, mais facilmente serão apreendidos. “Quando a criança começa a andar e você logo mostra que aquilo não é dela, que ela não pode mexer, você já está colocando um limite. Se você faz isso sempre, consegue impor essas regras com tranqüilidade, com carinho, mas com firmeza. Não adianta gritar, brigar ou bater, mas você precisa ensinar”, ressalta.

Só que para ter tanta firmeza, pais e mães precisam estar seguros e nem sempre é assim. Em entrevista ao Jornal da Cidade, uma mãe (seu nome será omitido para preservar a identidade da criança) conta que perdeu o controle sobre a filha por causa da culpa de passar muito tempo fora de casa.

“Eu trabalhava demais, ela passava o dia inteiro na escolinha ou com a babá. Eu só tinha o domingo para ficar com ela e queria compensar. Não queria brigar e acabava fazendo tudo o que ela queria. Agora ela tem 12 anos e eu não a controlo mais. Quando digo não, ela faz escândalo, ameaça, chora, grita comigo, se tranca no quarto, não me obedece. Isso me assusta, porque se é assim agora, como será aos 15 anos?”, questiona.

Para Godoy, a questão não é o tempo que os pais passam longe dos filhos, mas a disponibilidade que têm para eles. “Você pode trabalhar o dia todo, mas observar seu filho quando chega em casa, conversar com ele, perguntar como foi seu dia, dedicar 15 minutos para discutir coisas importantes. É uma questão de qualidade, não de quantidade”, orienta.

Apesar de considerar natural o desejo pelo poder nas crianças, a psicóloga salienta que os pais devem estar atentos às reações exageradas. Ela explica que há um limite entre o desejo natural de liderança e o autoritarismo propriamente.

Segundo Godoy, querer decidir as brincadeiras na escola ou fazer birra porque quer alguma coisa são reações normais em crianças. “Mas se os pais percebem que a criança está muito agressiva dentro de casa, se a escola começa a reclamar de brigas ou, ao contrário, se a criança começa a se isolar, fica constantemente mau humorada, os pais devem procurar ajuda profissional”, recomenda.

Segundo ela, atitudes extremadas podem indicar alterações psicológicas ou mesmo psiquiátricas mais sérias, o que exige tratamento.

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