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Corrupção se torna hábito cultural

Ronaldo Schiavone
| Tempo de leitura: 4 min

Os seguidos escândalos políticos em Brasília e a suspeita de sonegação fiscal na loja mais badalada de São Paulo são assuntos que vêm causando indignação em todo o País. Mas, e ao nosso redor, será que não há nada parecido? Enquanto os episódios de repercussão nacional provocam uma verdadeira catarse coletiva, a pequena corrupção cotidiana parece não comover da mesma forma quem a utiliza ou é beneficiado por ela.

Assim, atos como subornar um policial na tentativa de evitar uma multa de trânsito ou oferecer gorjeta para ser atendido com mais rapidez se tornaram práticas comuns e até ganharam apelido, o famoso “jeitinho brasileiro”. Embora teoricamente também se configurem como corrupção, essas violações acabam sendo mais aceitas e toleradas por grande parte da sociedade.

A pequena corrupção pode ser praticada de várias formas. Muitos motoristas, por exemplo, costumam deixar notas de dinheiro junto com o documento do carro na esperança da isca ser fisgada pelo policial que irá aplicar a infração. Nos escritórios e repartições, uma das táticas mais usadas é colocar a “oferta” no meio dos papéis.

“O tráfico de influências é outro exemplo famoso. Quando se conhece alguém em determinado local que pode quebrar um galho, muitas vezes a gente se esquece que esse favor vem em prejuízo de outra pessoa”, comenta o delegado aposentado Edson Cardia, que atualmente exerce o cargo de corregedor autárquico.

Ele relata que chegou a receber ofertas veladas de suborno quando atuava como delegado. “Houve insinuações, mas é claro que elas foram totalmente repelidas. Também trabalhei em casos onde esses oferecimentos foram concretos e houve o flagrante de corrupção ativa”, recorda.

Cardia destaca que esse tipo de prática está enraizada no cotidiano do brasileiro. “Olhando por determinado prisma, verificamos que a pequena corrupção chega a ser algo cultural. É a tal da ‘Lei de Gérson’, em que o cidadão quer levar vantagem em tudo”, observa.

A mesma constatação é feita pelo padre Roberto Francisco Daniel, o padre Beto, professor de ética da Instituição Toledo de Ensino (ITE). “Esse comportamento está no sangue do brasileiro, que não reflete a respeito disso. Criou-se a imagem automática que o corrupto é visto como pessoa esperta ou inteligente, alguém que tem um pensamento ágil”, analisa.

Ele explica que encontrou uma realidade oposta quando chegou à Alemanha, país onde viveu durante dez anos. “Lá, o inteligente é aquele que respeita o que é público e, por isso, o cidadão tem uma consciência social muito forte. Enquanto o brasileiro pensa primeiro no ‘eu’, o alemão prioriza o ‘nós’”, frisa.

Padre Beto faz, porém, uma ressalva. “Na Alemanha, desde que o cidadão começa a tomar consciência do mundo já se sente em uma sociedade acolhida pelo Estado. Ele recebe tudo o que é necessário para se auto-desenvolver e não se vê no direito de violar o que é público”, observa.

Situação diferente do que ocorre no Brasil. “Aqui, o indivíduo tem que lutar contra a sociedade para sobreviver. Ele precisa disputar uma vaga de emprego com o outro, por exemplo, e tem que duelar com o Estado para conseguir o que é necessário para o seu desenvolvimento”, declara.

O sociológo Murilo César Soares, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, também chama a atenção para o fato. “Muitas vezes, o cidadão está apenas se defendendo. No caso da sonegação, por exemplo, muitos pequenos empresários têm dito que atuam dessa forma em razão da alta carga tributária”, comenta.

Ele acredita que, diante disso, os pequenos casos de corrupção precisam ter tratamento diferenciado. “O que nós estamos vendo em Brasília foge a qualquer justificativa, pois se trata de algo sistematizado. É importante separar o cidadão comum daquele que se envolve nos casos de maior dimensão. Não podemos generalizar”, argumenta.

O delegado Edson Cardia discorda. “Do ponto de vista ético, as menores transgressões não diferem das maiores. Embora as pessoas que utilizam o jeitinho não se dêem conta disso, essas violações também são crimes e estão alimentando o monstro que nasce pequeno”, afirma.

Ele sugere soluções para o problema. “É preciso começar pelo aspecto educacional. Quando o aluno é formado como um cidadão pleno, é possível eliminar as raízes da corrupção. É um trabalho longo, mas fundamental. O segundo passo é conscientizar que a corrupção causa prejuízo a toda população. Por fim, há a necessidade de punir os envolvidos. Não se pode admitir que tudo acabe em pizza”, opina.

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