Pedimos licença ao amigo e competente professor Darvino para fazer uma pequena reflexão sobre nossa tão querida e agredida língua portuguesa. Estou feliz por você ter assumido a responsabilidade, aos domingos, da coluna “Diálogo do Português”, em que as regras básicas do idioma são apresentadas de forma clara e bem-humorada através de diálogos desenhados. Só lamento, caro Darvino, que a dosagem da matéria seja pequena em relação à gravidade dos erros do paciente. A sua proposta é bastante válida, fascinante, porque deixamos de viver na teoria para enfrentar a língua do mundo real. É uma forma bem diferente de ensinar português.
Seria errado afirmar que a língua portuguesa é uma paixão dos brasileiros, assim como o futebol, a televisão, a música. A verdade é que as pessoas finalmente perceberam que precisam dominar a norma culta do idioma. Principalmente na vida profissional. Quem não consegue articular pensamentos com clareza e correção tem um grande entrave à ascensão na carreira. A dificuldade com a clareza é um traço cultural no Brasil. Num país com tantas carências educacionais, falar de maneira rebuscada é indicador de “status”, mesmo que o falante não esteja dizendo coisa com coisa. Uma das formas degeneradas do português empolado persiste no chamado “burocratês”, a linguagem dos memorandos das empresas, nos quais mesmo para solicitar a compra de uma caixa de clipes são necessárias várias saudações e salamaleques. Outra é a retórica de parte dos políticos. O linguajar pomposo também sobrevive nas teses acadêmicas e nos discursos dos advogados.
Aliás, gostaria também de aproveitar este precioso espaço para comentar a carta de um ilustre advogado da cidade, na “Tribuna do leitor”, na segunda-feira, 11 de julho, quando afirma que o correto é dizer: “ele reside à rua Alfredo Maia e não na rua Alfredo Maia... Causou-me estranheza essa afirmação, como também a muitos leitores dessa famosa tribuna que, céleres, já se manifestaram a respeito.
Conta-se que, certa vez, o filósofo grego, Sócrates, ao discutir com um radical e intransigente sapateiro sobre termos filosóficos, sem conseguir convencê-lo, teria dito: “sapateiro, não vá além das sandálias”.
Parodiando o grande filósofo grego, nós diríamos ao autor da afirmação acima: “Advogado, não vá além das leis”.
Com todo o respeito ao ilustre advogado, como professor de português, humilde repetidor de aldeia há 46 anos, afirmamos que as palavras “sito”, “situado”, “morador”, “morar”, “residente” e “residir” devem ser usadas com a preposição “em” e não “a”, pois quem reside, sempre reside em algum lugar e não a algum lugar. Sobre a palavra “sito”, lembramos que se trata de um exemplo de burocratês (linguagem só usada em textos comerciais).
Caro advogado, longe de nós a intenção de humilhá-lo ou constrangê-lo com nossa correção. Eu sei que ninguém gosta de ser corrigido ainda mais em português. Se o fizemos, foi com a intenção de, após longos anos de magistério, não cometer o pecado da omissão.
Professor Gino Crês