Ciências

Ruas do mundo estão na Internet

Sabrina Magalhães
| Tempo de leitura: 6 min

O poder de monitorar coisas e pessoas à distância, pela tela de um computador, já não é mais só tema de ficção ou de cinema. Satélites espalhados pelo espaço, na órbita da Terra, são capazes de captar imagens nítidas de qualquer ponto do planeta. Muitas dessas imagens podem ser acessadas livremente pela Internet. O recurso tem sido utilizado para inúmeros fins científicos, mas também assusta muita gente.

Graças a essas imagens, é possível avaliar as condições do tempo, prever tempestades, acompanhar a rota de um furacão, monitorar o avanço de uma erosão, fiscalizar o desmatamento da Amazônia, traçar mapas de altíssima precisão, rastrear veículos, localizar qualquer cidade do mundo.

No entanto, nem todos gostam de saber que podem estar sendo vigiados. Quem está vendo essas imagens e o que pode fazer com elas são as questões que mais intrigam as pessoas, como apurou a reportagem. Elas sabem que essa tecnologia existe, mas não têm certeza de até onde esses equipamentos podem ir e se mostram preocupadas com as formas de sua utilização.

“Tudo depende da intenção da pessoa que controla esses dados”, opina a aposentada Cordélia Abdalla. Ela defende o avanço tecnológico quando este oferece conforto e praticidade ao ser humano. “Tenho um sobrinho morando na África e é uma coisa espetacular poder conversar com ele diariamente, vendo e ouvindo pelo computador”, destaca.

No entanto, ela repudia a utilização tecnológica para fins bélicos. “O homem não está mais brincando com Deus. Está brincando de Deus e as pessoas estão exagerando um pouco. Estão aproveitando um dom que Deus nos deu - a inteligência - para destruir o próprio homem”, acrescenta.

Outros se sentem incomodados por saber que podem estar sendo vigiados. “Acho estranho saber que tem alguém me olhando. Se for para monitorar e evitar guerras, é bom. Mas acho esquisita essa falta de privacidade”, comenta a auxiliar de cozinha Débora de Souza Leite.

“Eu me sinto mal de saber que estamos sendo controlados, que o mundo está sendo controlado por uma única potência - a norte-americana. Eles acham que têm o direito e o poder de espionar tudo. E eu nem falo em monitoração, mas em espionagem mesmo. Eles, que sempre se sentiram super-heróis, superpotentes, agora sentem medo e querem controlar tudo”, alega a filósofa Irmã Regina Moreira Rocha.

Há também aqueles que não acreditam que as imagens sejam reais. “Tudo mentira”, comenta uma jovem que não quer se identificar. “Será que um dia eles vão conseguir monitorar a gente”, indaga uma senhora.

E aqueles que acham a tecnologia simplesmente fabulosa. “Você consegue localizar qualquer lugar para onde queira ir. Além de poder mostrar. Eu estive recentemente em outro País e pude mostrar não só a minha cidade, mas a empresa em que trabalho para outras pessoas”, elogia.

Para conhecer um pouco melhor esses recursos, basta navegar um pouco pelos sites de busca da Internet. As imagens de satélite estão disponíveis em vários sites. Alguns oferecem programas para download. Para experimentar, visite www.maps.google.com.

Avanços

Na prática, a possibilidade de acompanhar tudo o que ocorre na Terra pelas imagens de satélite já nem é novidade. Isso é feito há décadas pelos países mais desenvolvidos. O que muitos ainda desconhecem é até onde esses equipamentos conseguem atuar.

De acordo com Wilson Yonesawa, professor do Departamento de Computação da Universidade Estadual Paulista (Unesp) de Bauru, muitos dos recursos vistos em filmes do século passado já existem no mundo real e estão disponíveis para quem quiser utilizar.

“Para os governos, a tecnologia é a melhor coisa que existe. Poder monitorar pessoas pode ser uma questão de segurança nacional. De modo geral, todos os governos querem ter certo controle sobre o que ocorre em termos de informação em seu País. O problema é que essa mesma tecnologia também pode estar nas mãos dos terroristas”, adverte.

Na opinião de Yonesawa, o ser humano deve estar preparado para ser cada vez mais monitorado. “Hoje tudo passa por determinados lugares digitalmente e tudo é armazenado para uso posterior. É por isso, por exemplo, que existe o sigilo telefônico”, afirma.

Segundo ele, as operadoras de telefonia mantêm um banco de dados onde é possível saber quem telefonou para quem, de onde para onde, quando, quantas vezes e por quanto tempo. Esse registro ainda não capta o conteúdo das mensagens, mas o especialista acredita que haverá um dia em que isso também será possível, o que deixará o cidadão ainda mais vulnerável às espionagens.

“A saída é embaralhar esses dados. É para isso que serve a criptografia. Com a tecnologia de hoje, seriam necessários 50 anos para desembaralhar dados criptografados. O problema é se descobrirem uma forma de fazer isso em meses. Então, ao mesmo tempo em que uns estudam formas mais eficazes de embaralhar os dados, outros pesquisam formas de decodificá-los. É uma corrida de mão dupla”, enfatiza.

Para o professor, os impasses acerca da tecnologia, seja na Internet, via satélite ou qualquer outro meio de propagação de dados, tendem a ser infinitos, porque o avanço das descobertas é constante. “E toda tecnologia pode ser usada tanto para o bem quanto para o mal. Por isso essas descobertas têm tanto impacto nas relações humanas. E a tendência é de que sejamos cada vez melhor vigiados”, encerra.

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Fala povo

O que você acha de estar sendo monitorado?

“Ainda não parei direito para pensar nisso, mas acho que tudo é possível. A gente só fica na expectativa de que isso possa melhorar as coisas no mundo, porque pior do que está, é difícil”

Lourdes Fávero Frederico, professora, 65 anos

“Eu vi algumas imagens pela TV, eles alcançam até as cidades. Acho meio estranho saber que tem alguém me olhando. Se for para monitorar e evitar guerras, é bom. Mas eu acho estranha essa falta de privacidade”

Débora de Souza Leite, auxiliar de cozinha, 20 anos

“Acho que pode ser bom isso. Pelo menos a gente sabe melhor o que está se passando. Não me assusta, nem acho ruim. Acho interessante alguém acompanhar tudo”

Pedro Bueno Ciaca, vigia, 60 anos

“É bom e é ruim. Ninguém gosta de ser vigiado. Mas é um avanço, porque os governos podem identificar problemas mais rápido e agilizar o desenvolvimento das cidades. Mas é ruim, porque é um constrangimento saber que estão me vigiando”

Mikael Leandro Soares Pires, garçom, 24 anos

“Eu avalio como um avanço da tecnologia. Claro que depende da maneira que queiram utilizar. Como princípio de guerra, é um prato cheio para localizar onde jogar uma bomba. Mas para fins pacíficos, é ótimo. Eu, por exemplo, estive recentemente em outro País e pude mostrar não só a minha cidade, mas a empresa em que trabalho para outras pessoas”.

Antonio Baebe, eletrotécnico, 50 anos

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