“Era final de 1989, quando viajamos ao litoral do Estado de Santa Catarina, Camboriú. As duas famílias, meu pai Jesus Zorzi, minha mãe Lane e minha irmã Reni. E a família de minha então namorada Andréa, seu pai Hermenegildo Castilho, sua mãe Divanir e sua irmã Roberta com sua amiga Taís.
Como é de costume, meu pai sempre leva nestes passeios uma tarrafa e uma rede para podermos pegar um ‘belisquinho’ para o final de tarde. É bem verdade que pouquíssimas foram as vezes que não pegamos nem um peixinho para saborearmos. Entre os 15 dias que ficamos por lá, fomos quase todas as noites (começo de noite) dar aquela tarrafeada ou simplesmente passar um arrasto pela praia.
Um desses dias foi o fatídico. Começamos por volta da 18h, e tarrafa pra lá e tarrafa pra cá. As horas foram passando. Já eram quase 20h e nada. Nem mesmo aqueles siris que só servem para dar nó na rede. Foi quando bateu aquele desânimo e resolvemos que seria melhor tomarmos umas cervas sem o tão esperado belisco.
Sentamos então à areia quando chegaram dois garotos e nos disseram:
- Tio, ainda não é hora.
Nós, com aquele ar de sabe tudo, rimos dos meninos e, brincando com eles, perguntamos:
- Já que vocês sabem de tudo, qual seria o melhor horário?
Sem pensar muito disseram que seria depois de uns 10 minutos.
Bem, ignoramos e abrimos a garrafinha de cachaça da melhor qualidade, que também sempre acompanha meu pai, para tirar um pouco do frio. E enquanto papo vai e papo vem e golinho vai e golinho vai de novo, os garotos chegaram perto de nós e, gritando, disseram:
- Tio, tio, tio, empresta a tarrafa que chegou a hora.
E dando risada emprestamos a tralha.
Os meninos entraram correndo água a dentro, cada um segurando de um lado da tarrafa e já foram jogando a malha. Da mesma forma que entraram, saíram. Correndo em direção à praia mas com uma grande diferença. A tarrafa estava lotada de sardinhas. Eles, os meninos, não se preocupavam em tirar os peixes da tarrafa, simplesmente balançavam e voltavam para dentro dágua. Quando vimos aquilo, pegamos a rede e corremos pra ajudar. E arrastava daqui e dali e a rede ficava branca de tanto peixe.
Passaram então uns cinco a dez minutos de correria, quando os meninos saíram correndo abandonaram a rede e se sentaram na areia da praia bem longe da água e gritavam pra gente sair da água que tinha peixe grande. Nem ligamos, pois a emoção era tão grande não só pela quantidade de peixes como pelo prazer que estávamos proporcionando às pessoas que passeavam pela praia, eles vibravam a cada retirada da rede. Se tivesse peixe grande, era ele que queríamos pegar.
Quando, de repente, como que por mágica, todos os peixes sumiram. Até o barulho que o cardume fazia na água sumiu como se alguém tivesse tirado o fio do aparelho de som da tomada.
Ficamos olhando pra lá e pra cá e nada. Mais umas passadas de rede e tarrafa e nada. Então, como não tinha mais o que fazer, voltamos à areia pra guardar os peixes.
Os meninos nos falaram que corremos um grande perigo pois os tubarões vinham atrás das sardinhas, por isso que saíram correndo logo que avistaram um deles. Bem, depois do horário que tinham nos avisado, não tinha mais como duvidar. Com certeza tinha tubarão por ali.
Demos aos meninos duas sacolinhas, dessas de supermercados, cheia de peixes e levamos o restante para o apartamento. Foram 13 quilos e meio de sardinhas frescas, sem contar as duas sacolas dos meninos que não foram computadas. O difícil foi passar o resto da madrugada limpando as sardinhas. Doía as costas e as pernas, a cachaça e a cerveja acabaram e a gente ainda lá.
Pelo menos todo o andar do prédio em que estávamos comeu sardinha naqueles dias. Nos dias restantes nem ao menos tentamos passar novamente a tarrafa como medo de pegar outro cardume. Quem iria limpar?”
Jener Queiroz Zorzi é quase um pescador e contador de história dos bons