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Cultura negra revisitada

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 11 min

Integrante de uma família italiana classe média, o músico paulistano Marco Mattoli, 40 anos, talvez nunca se tornasse um dos principais expoentes do cenário samba-rock nacional se não fosse por uma característica singular de sua personalidade: a curiosidade e o gosto eclético por diferentes ritmos.

Na juventude, percorria lojas de discos e fazia pesquisas sobre música brasileira, samba, rock, jazz e soul. Nos anos 90, começou a participar do grupo Guanabaras, um dos pioneiros do suingue produzido pela mistura de samba e metais, o samba-rock. Nessa época, Mattoli gravou, juntamente com outros músicos, o CD “Swing & Samba-Rock”, abrindo as portas para o surgimento do Clube do Balanço, uma das principais bandas de samba-rock do Brasil.

Na estrada há cinco anos, o grupo - que se apresentou no projeto especial Samba-Rock, desenvolvido pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) no final de maio - busca divulgar o samba-rock e a cultura negra no País por meio de bailes animados por discotecagem ao vivo, como explica Mattoli.

“O samba-rock é mais definido como dança do que por um ritmo ou questão musical, especificamente”, diz o músico, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade. Para Mattoli, embora o samba-rock esteja sendo cada vez mais conhecido, em especial na Capital, ainda faltam espaços para a realização dos bailes. Esses e outros assuntos foram tema da entrevista a seguir. Confira os principais trechos.

Jornal da Cidade - Você é paulistano e descendente de italianos. O samba-rock já fazia parte de sua infância?

Marco Matolli - Não. É uma história muito bizarra. Eu comecei de curioso, indo em loja de discos e conhecendo pessoas. É uma coisa muito de paulista um italiano fazer um trabalho representativo de cultura negra.

JC - Como iniciou sua carreira como músico?

Matolli - Começei com um grupo chamado Guanabaras, há 15 anos, que na época fazia samba misturando com rock, o samba-rock. Era um grupo bem pioneiro, porque o cenário musical brasileiro daquela época era extremamente rock’n’roll, uma referência à cultura norte-americana forte. Então, entre 1989 e 1990, uma banda de pop, se propondo a fazer samba, era uma coisa inédita. Faziam apenas cinco anos da influência de Chico Science e o Guanabaras abriu uma fronteira bacana. No grupo onde produzimos nosso primeiro disco, começamos a tocar nos grandes bailes negros de São Paulo. Foi onde descobrimos que havia um universo de samba e samba-rock e também foi onde tive acesso a essa cultura.

JC - Até então você não conhecia profundamente o samba-rock?

Matolli - Eu gostava de samba, de música brasileira, mas não tinha tido contato com o baile e a periferia. Aos 20, 21 anos conheci e tive essa introdução ao samba-rock muito feliz porque o grupo foi bem aceito. As músicas do primeiro disco tocam até hoje nos bailes e é muito bacana. O segundo trabalho da minha história é um disco que traz todos os músicos que estão hoje no Clube do Balanço e tocavam comigo. Esse disco deve estar completando oito ou nove anos de trabalho. Há também um solo meu, que se chama “Balanço Bom É Coisa Rara”, onde explicitamente eu flerto com o samba-rock. Também já regravei “Segura Nêga”, nome de uma banda de Bauru. Além disso, nessa época, fazia trabalhos com o Luiz Wagner. Já regravei “Kid Brilhantina”, que é um outro clássico do samba-rock, e músicas autorais, já com uma raiz de samba muito forte.

JC - Como surgiu a idéia de se criar o Clube do Balanço?

Matolli - Depois desse disco, que teve um lançamento restrito porque era um disco independente, surgiu a idéia de se fazer o Clube do Balanço, composto por essa turma que me acompanhava. Nós acabamos ficando, é claro, muito amigos, e surgiu a idéia de fazermos um baile, que sempre foi nossa grande atração. O baile é um fenômeno maravilhoso em São Paulo. Existe a dança do samba-rock, uma música discotecada muito especial, onde buscamos fazer um baile com uma banda tocando ao vivo. Uma banda especializada no ritmo, que tocasse samba bem e revisitasse a maneira de se arranjar o samba-rock da época. Essa era a idéia do Clube do Balanço. Nosso primeiro show foi no dia 13 de maio de 2000, na Cohab Artur Alvim, onde o Renato Bérgamo, que é nosso produto, mora.

JC - Você guarda esse show com detalhes. Foi um marco para o grupo?

Matolli - Foi um marco sim. Foi onde nasceu o Clube do Balanço. E o grupo nasceu singelo, num salão de festas pequeno, com as nossas namoradas cuidando do bar e o músicos tocando. Depois levamos o show para a Vila Madalena, que é o bairro boêmio de São Paulo, e aí que entrou, talvez, o grande mérito do Clube do Balanço. Nós levamos o samba-rock para a juventude classe média, que descobriu essa música e a dança, e abraçou a idéia em cheio. Aí começou o sucesso do Clube do Balanço em São Paulo, abrindo as portas para os nossos dois discos.

JC - Você citou a aceitação do samba-rock pela periferia e a classe média. Como avalia esse cenário atualmente?

Matolli - Acho que existe uma grande música negra desconhecida. O Clube do Balanço e uma série de outros artistas modernos têm revisitado e valorizando a música negra pop dos anos 60 e 70. Mas até sete ou oito anos atrás, ela era desconhecida. Essa música só era reverenciada e respeitada nos guetos e nos bailes. Mas lembro de uma coisa bacana: entre 1999 e 2000 começaram a discotecar nas festas alguns grandes hits de música negra. O Jorge Ben já era muito famoso, desde a década de 90, eu diria que ele foi a ponta do Iceberg para que a moçada começasse a descobrir o ritmo, juntamente com Tim Maia. E isso abriu o caminho para que o público conhecesse uma série de artistas como Luiz Wagner, Marco Ribas, Branca di Neve, Black Rio, União Black e outros artistas que até então eram ignorados porque o mercado fonográfico é muito cruel no Brasil.

JC - Por quê? Em que sentido?

Matolli - Os discos desses artistas não eram editados, não eram catálogos de gravadoras. Tanto é que nos dois últimos anos houve uma avalanche de relançamentos. A maioria dos discos foram relançados, todos da Elza Soares e do Wilson Simonal, entre outros.

JC - A exemplo desses artistas, Jorge Ben Jor já fazia samba-rock no início de sua carreira?

Matolli - Essa é uma discussão. Jorge Ben Jor acha que não faz samba-rock. Se alguém perguntar para ele, talvez diga que faz balanço, ele não gosta desse nome. Mas o fato é que ele é um dos inventores da história, especialmente os discos do início de sua carreira até “Tábuas de Esmeralda”, no final dos anos 70, são referências em bailes. É o próprio samba com um toque diferente, não é o samba tradicional. É o samba com um pegadinha de guitarra, pop, rock’n’roll e soul. Apesar de achar que não, Jorge Ben Jor é o pai da matéria (risos).

JC - E hoje, o que é o samba-rock? Como você o difine?

Matolli - Eu defino o samba-rock não como ritmo mas como dança. Acho que o samba-rock é mais definido pela dança, pelo baile e pela cultura do que especificamente por um ritmo ou uma questão musical. Isso é uma coisa que sempre perguntam e eu prefiro definir assim. Porque se as pessoas vão a um baile de samba-rock, elas dança Ray Charles, Paul MacCartney, Chico Buarque e Bossa Nova. Não é uma coisa tão definida pelo estilo musical, mas pela história cultural. Tanto é que eu acho que o Clube do Balanço é a primeira banda que tenha se definido como uma banda especialista em samba-rock que toca baile. Os próprios artistas que são clássicos no samba-rock, o Bebeto ou o Luiz Wagner, nunca fizeram samba-rock. Eles faziam discos das músicas deles que tinham samba, funk, e, no meio, os DJs descobriam alguma coisa que funcionava na pista, o samba-rock.

JC - O Clube do Balanço se especializou na pista?

Matolli - Sim. Nós acreditamos que o samba-rock é um ramo, uma especialidade do samba.

JC - Você citou que o samba-rock é mais dança do que ritmo. Entrando por um lado mais comportamental, como analisar a atitude das pessoas nas pistas?

Matolli - Quando se fala em cultura, se fala em uma série de coisas que compõem o cenário. Eu sinto o cenário do baile, dessa cultura urbana de São Paulo, como um momento chique da comunidade negra. No baile de samba-rock é a hora que o pessoal veste aquele terno, aquela roupa chique e elegante. Não se entra no salão de tênis, só de sapato. O clima é familiar, se vê um negro de 70 anos e a neta dele, de 15 anos, dançando juntos. É muito bacana e a dança em São Paulo está ligada à cultura familiar. Num churrasco de domingo ou num casamento as pessoas dançam e nisso o samba-rock é muito parente do samba. É uma coisa que acontece no quintal, na sala, na cozinha das casas, antes de acontecer nos bailes.

JC - Em relação aos bailes de samba-rock, essa “moda” é mais restrita às famílias ou também atinge as casas noturnas?

Matolli - Os bailes continuam como uma coisa bem tradicional, de cultura negra mesmo. O que acontece na Capital é que agora o samba-rock passou a ser curtido por outras pessoas, então há um circuito de casas noturnas com noites de samba-rock. A noite pioneira é nossa, ela começou em 2000 e até hoje existe. Depois disso o Faro Fyno também começou.

JC - Pode-se dizer que o samba-rock está passando por um amadurecimento?

Matolli - É um crescimento. Está se definindo mais espaços para o samba-rock, além desses espaços antigos, que eram os bailes.

JC - Embora presente em diversos estados, essa cultura negra urbana está se concretizando ou ainda encontra resistências?

Matolli - Acho que ela tem grandes espaços e muito respeito. O samba carioca, por exemplo, é super documentado. Quem não conhece Cartola ou a Velha Guarda do Rio de Janeiro? A Bahia também é bem cultivada. Mas, nos meios intelectuais, quando se fala em samba de São Paulo ou do Sul, eles perguntam: existe? E como existe.

JC - E como está o cenário do samba-rock no Interior do Estado?

Matolli - Está começando a andar. Em Bauru, o festival foi fantástico, as bandas estão empolgadas. Também fizemos em Ribeirão Preto e foi legal. E no Interior têm cidades que são tradicionalmente fortes em cultura negra: São Carlos, Araraquara e Tietê. Nós sentimos que assim como São Paulo, onde o samba-rock está indo para as casas noturnas e ficando uma coisa mais popular, no Interior também existe essa tendência.

JC - Bauru tem certo nome de destaque na área de hip hop. Isso influencia no cenário samba-rock?

Matolli - Sim. Quem curte ou fez hip hop ouviu samba-rock em casa.

JC - Por quê? Qual a ligação das duas manifestações?

Matolli - Cultura negra. Hip hop é cultura negra moderna, é o punk rock, o rock’n’roll do moleque negro. O samba rock é o rock clássico, é um pouco isso, fazendo uma comparação meio espúria. Quando se fala em qualquer DJ ou cara de hip hop, por exemplo, Racionais, ou o próprio Jorge Ben Jor, se associa a um samba-rock clássico de pista. A referência deles é totalmente ligada à black music dos anos 60 e 70.

JC - Você se considera um precursor do samba-rock paulista?

Matolli - Eu me considero um elo para a nova geração. Acho que fui um cara que nos anos 90 insisti e bati muito a cabeça para manter aceso isso, mostrando para as pessoas que era bacana. E de uma certa maneira o Clube do Balanço acabou virando uma referência, com certeza, para todas as bandas modernas. O Clube tem uma história bacana e bonita.

JC - A banda está no segundo CD, o “Samba Incrementado”. Há planos para gravar um terceiro álbum?

Matolli - Nós queremos gravar um DVD reunindo músicas do primeiro e segundo discos com algumas coisas novas.

JC - Soube que você, particularmente, tem interesse na área literária. Existe outro projeto em vista?

Matolli - Com o DJ Paulão. Estamos acalentando a idéia, ainda não colocamos a mão na massa. É um sonho, temos o projeto de algo escrito que falasse desse universo: não é nem sobre a história do samba-rock, mas um pouco mais amplo, que falasse da cultura negra urbana de São Paulo, do baile e seu ambiente, dos DJs, e da dança. No Brasil, as pessoas não consideram que existe a cultura afro-brasileira de São Paulo para baixo. Isso é um grande equívoco. Ela é forte, importante e antiga. Não só em São Paulo, ela existe no Rio Grande do Sul e Minas Gerais.

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