Em seu dicionário, Aurélio Buarque de Holanda define mutirão como: “auxílio gratuito que prestam uns aos outros os lavradores, reunindo-se todos os da redondeza e realizando o trabalho em proveito de um só, que é o beneficiado, mas que nesse dia faz as despesas de uma festa ou função.” A palavra é brasileiríssima, vem do tupí: moti’rõ. Também é bem brasileiro esse sentimento de solidariedade que tem respondido, ao longo dos anos, por muitas ações comunitárias.
Originalmente usado para atividades agrícolas, o mutirão passou a ser realizado em regiões urbanas para construção de moradias. Em regime de mutirão vários bairros e vilas foram construídos por esse país afora.
Nos últimos tempos o espírito solidário e cooperativo do mutirão alcançou a área da saúde. Assim, esforços concentrados de grupos de médicos e outros profissionais da saúde têm permitido ações intensivas no atendimento de número relevante de pacientes que em fila, às vezes por meses e meses, estavam esperando chegar a vez de serem atendidos.
Muitos desses pacientes, talvez a grande maioria, continuariam nas filas, correndo riscos de complicações pela evolução da doença, se não fossem os mutirões e a boa vontade daqueles que o tornam realidade.
É gratificante perceber que ainda existe a solidariedade nesse mundo “globalizado”, onde, infelizmente, cada cidadão vale pelo que tem e não pelo que é. Seria muito bom que proliferassem os mutirões. E que, principalmente, incluíssem mutirões pela vida, pelo trabalho, pela segurança e pela justiça social. Enquanto isso não vem, vamos continuar com nossos mutirões mais simples, mas, nem por isso menos valiosos como manifestações de amor ao próximo e de cidadania.
O autor, Isac Jorge Filho, é presidente do Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo