De mãos atadas pelas dificuldades financeiras que afligem a administração pública, a Secretaria das Administrações Regionais (Sear) propôs aos moradores do núcleo habitacional Ernesto Geisel uma parceria para revitalizar o bosque do bairro. O anúncio foi feito no último dia 19, durante reunião entre moradores e representantes da prefeitura, realizada no próprio bosque.
Segundo a proposta, Sear, Secretaria do Meio Ambiente (Semma) e Secretaria de Esporte e Lazer (Semel) vão trabalhar juntas para limpar, realizar a poda das árvores, fazer pequenos reparos nas instalações e na quadra. A comunidade, composta por membros da Associação de Moradores e usuários do local, vão se encarregar de cuidar da conservação do espaço.
Os trabalhos de limpeza do local tiveram início no dia seguinte ao da reunião. Segundo o titular da Sear, Nélson Fio, a proposta surgiu a partir de um apelo da própria comunidade. “Os moradores pediram (melhorias) e vamos limpar e reformar o que for preciso, mas a manutenção se responsabiliza por sua conservação”, diz.
Isso seria feito, segundo Fio, por uma comissão formada por diversos segmentos da comunidade, como membros da associação, mulheres que fazem ginástica e entidades que cuidam de atividades esportivas. O secretário diz ainda que a Sear planeja fazer investimentos em iluminação e na recuperação de calçadas. “Com a colaboração da comunidade, vamos cuidar de todos os bosques da cidade”, diz Fio.
Carlos Barbieri, titular da Secretaria do Meio Ambiente (Semma) - pasta responsável por cuidar dos bosques -, apóia a iniciativa de atuação conjunta no Bosque do Geisel. “É importante porque a Sear é sempre acionada para algumas ações, já que ela tem as máquinas (trator, pá-carregadeira). Nós só temos grama e árvores”, diz.
Disputa
O anúncio da parceria com a comunidade para cuidar do bosque feito pela Sear, porém, não explicitou de quem partiu a “idéia”. A omissão tem sentido. O JC nos Bairros constatou que dois grupos que lutam pelo controle político da associação se apresentam como o “pai da criança”.
De um lado, o atual presidente da Associação de Moradores do bairro, Alan Carlos Ursulino de Paula, garante ter partido dele o pedido à Sear para recuperar o bosque. Ele até apresenta um documento no qual a associação teria firmado convênio com o Patronato Professor Damásio de Jesus, instituição privada comandada por voluntários que é responsável pela execução e fiscalização do cumprimento de penas alternativas.
Segundo o convênio, um jovem condenado pela Justiça por um crime leve cumpre sua pena prestando serviços comunitários (capinação e limpeza) no Bosque do Geisel. Para Paula, isso revelaria a disposição da atual diretoria da associação de moradores em cuidar da questão.
Alan de Paula lembra que a participação da comunidade é importante, mas diz que “a prefeitura precisa dar sua parcela” através do repasse de uma verba para que a associação possa cuidar o bosque. Segundo ele, a administração do bosque foi repassada para a associação, por tempo indeterminado
“Se a prefeitura ‘der uma força’, vamos pedir ajuda da população”, diz Paula, calculando em “uns R$ 8 mil” o valor mensal necessário para isso. “Se não tiver colaboração, o melhor é devolver o bosque à prefeitura”, diz, apoiado por Angelino Moreira e Conceição de Oliveira Isidoro, diretores da associação.
Reação comunitária
Em outra frente, Paulo Sérgio Lima de Souza, também integrante da rachada diretoria da associação, apresenta uma série de ofícios encaminhados à Sear para embasar sua tese de que a iniciativa, na verdade, partiu da comunidade.
Segundo ele, o pedido foi motivado depois que um grupo de 28 mulheres que há oito anos fazia ginástica nas dependências do Centro Comunitário teria sido expulso do local pelo presidente da associação. O fato gerou, inclusive, o registro de Boletim de Ocorrência por injúria no 4.º Distrito Policial.
Souza conta ainda que 230 moradores do bairro fizeram uma assembléia, realizada no último dia 24 de abril, onde foi deliberada a destituição de Alan de Paula do cargo do presidente.
Paula, por sua vez, contesta a reunião e diz que, segundo o estatuto, “apenas uma assembléia com os membros da diretoria” pode tomar este tipo de decisão. “Não adianta reunir meia dúzia de pessoas e fazer um ‘papelzinho’. O bairro é uma comunidade, mas quem toma as decisões é a diretoria”, diz Paula. “A Sear tem meios para fazer valer esta assembléia”, contesta Souza.
O dirigente diz ainda que conseguiu, através de ofício enviado à Companhia de Habitação Popular (Cohab), o bloqueio de uma verba de R$ 35 mil disponível para aplicação em obras comunitárias no bairro e que seria pretendida por Paula.
O dinheiro refere-se à Taxa de Apoio Comunitário (TAC), um fundo gerado a partir do pagamento das prestações das casas de núcleos habitacionais e cuja aplicação deve ser voltada para equipamentos de uso comunitário. Paula diz que a Cohab acatou o pedido, mas a empresa não confirmou a informação.
Na última sexta-feira, Souza e um grupo mulheres que faziam ginástica no Centro Comunitário se reuniram no bosque com o secretário Nélson Fio para discutir detalhes da parceria. “Temos uma bela estrutura aqui, que precisa ser aparelhada para voltar a ser utilizada”, diz Souza, ressaltando que “o compromisso da Sear é coma comunidade, e não com a associação”.
Também participaram representantes de comerciantes locais dispostos a participar do projeto de revitalização. “Isso também é interessante para nós e vamos estudar qual pode ser a nossa contrapartida no projeto”, disse Nélson Pusipe, gerente de um supermercado instalado no bairro.
Em meio ao tiroteio, Fio anunciou que “a Sear não entra nessa briga”. “Queremos apenas que a comunidade se una”, diz. Ele porém confirma que a secretaria já enviou ao Departamento Jurídico da prefeitura o processo que pede a retomada do Centro Comunitário, que estaria abandonado e com suas instalações degradadas. Fio também admite retomar o controle do bosque. “O que não dá é para deixar o bosque neste estado de abandono”, ameaça.