“Isto é uma história verídica! Aconteceu no Rancho 10 localizado às margens do rio Aquidauna, próximo ao distrito de Piraputanga (MS), lugar maravilhoso cravado entre enormes rochedos lapidados pelas mãos Divinas, herança do meu velho, Pepê (Percival Pinheiro), ‘pescador dos bão’, de quem tenho várias recordações com muitas alegrias e agora posso contar uma delas.
Para quem conhece este lugar que descrevo (existem outros ranchos próximos que também são ocupados por bauruenses e seus convidados) sabe das belezas encantadoras ali presentes. Desde montanhas de pedra, uma bela prainha com areia branca e tudo, uma leve queda d’água com várias pedras no rio, fartura de peixes, tanto de escama como de couro, sem contar o acampamento vizinho que dispõe de uma míni-represa formando uma piscina natural com água corrente vinda das rochas e mais uma trilha no meio da mata formando um bosque particular. Imagine tudo isso com o acréscimo do canto dos sabiás, pássaros-pretos, araras e beija-flores. Ah! Detalhe, o rio fica a menos de cinco metros do rancho e a sua orla é muito limpa, inclusive sem os famigerados pernilongos.
Num lugar como esse não dá pra ter estresse, nem muito menos inventar algum . É por isso que procuro sempre primar por levar pessoas amigas a esse maravilhoso lugar. Muita alegria, festa, pescaria , diversão da melhor qualidade possível, sempre prezando pelo companheirismo e respeito entre os participantes e as normas do nosso rancho. Você pode até não acreditar, mas este lugar existe e é real. Mas como nem tudo é perfeito... Eis que surge o linguarudo Carlão, ou melhor, o corneteiro Carlão, ou como queiram...
Este é o tipo do cara que vai precisar de dois caixões no velório; um para o corpo e outro para a língua. Mas vamos lá. É que na mais recente pescaria organizada no local, ocorreram alguns imprevistos e até obras da natureza que a própria natureza explica, mas o Carlão implica.... Logo de cara, passados alguns quilômetros de viagem, o nosso motorista, um pouco cansado, fez uma parada para o café e mais alguns quilômetros depois, resolveu mesmo assumir o cansaço e novamente parar para dar uma cochilada.
Pronto! Já começou a conversa: ‘Acho que trouxemos o anão errado. Esquecemos o Dunga (apelido de um amigo que não pôde ir) e veio o Soneca’, disse. Ou mesmo o seguinte comentário: ‘Este é o motorista telesena, só dirige de hora em hora’. Ao chegarmos em Palmeiras, cidadezinha próxima ao rancho, ficamos sabendo que trecho estava intransitável e tivemos que fazer outro caminho e, então, novo disparo: ‘Moçada vai se acostumando com a enganação, pois mal chegamos no rancho e já estamos voltando para casa. Isso que dá pagar adiantado!’
Bem..., ao chegarmos no rancho, percebemos que o volume d’água estava acima do normal. E ao levarmos os calouros desta pescaria para conhecer a prainha, tivemos a surpresa dela estar submersa, o mesmo aconteceu com a queda d’água. Imaginem o que aconteceu: ‘Eu quero ver onde vamos enfiar a picanheira do Nelson Ono, no luau da prainha... As fotos da correnteza vão ficar boas’... e por aí vai.
À noite as coisas pioraram, pois além do nosso amigo levar uma surra no truco, ainda teve que agüentar a sinfonia de roncos, em especial a do Celinho, do qual disse parecer ter alguma coisa quebrada por dentro (parecia ter engolido uma caixa de ressonância com defeito).
Durante o dia, a sua única dúvida era como faríamos a divisão daqueles raros mandis de aproximadamente noooooooooove centímetros. Ai meu Deus! Acho que cortei algum bico de beija-flor quando criança. Mas ainda não acabou. Na noite seguinte, o nosso distinto amigo buscou abrigo na barraca do Cláudio para fugir dos relaxantes roncos do Celinho. Foi então que entrou em ação o Pavaroti, ou melhor, os Pavarotis. Pavaroti é o apelido do galinho garnisé que tem o fuso horário atrapalhado, pois canta em boa parte da madrugada. Só que desta vez eles tinham se multiplicado: ‘Já sei, eu vou enfiar o Celinho com cinco Pavarotis numa barraca e fechar’, resmungava o nosso hilário amigo.
De manhã fomos visitar o acampamento vizinho para dar um mergulho na piscina natural e aí demos de cara com o caseiro tirando a lama depositada no fundo da represa em virtude das fortes chuvas, e aí, pra completar: ‘Tudo bem que sou palmeirense, mas nadar na lama é muito’. Então veio a célebre frase: ‘Esta pescaria é um engodo cavalar’ (fazendo menção ao meu apelido - Cavalo).
No mais, restou-me o consolo do testemunho da maioria dos companheiros que já conheciam o lugar e a descontração como trataram o assunto. E o Carlão? Ah, esse vamos amarrar numa corda, jogar no rio e ver se serve para uma poita. O time desta pescaria foi formado por: Almir, Arthuso, Carlinhos, Celinho, Cláudio, Denis, Dirceu, Edmo, Emerson, Luizinho, Nelson Ono, Neves, Tite, Zezinho e Ele, o Carlão.”
Emerson A. A. Pinheiro é pescador e contador de histórias