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A divina tragédia


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Só faltava esta: enquanto o fogo se aproxima do Palácio do Planalto, o presidente Luiz Inácio veste um manto divino. Nenhum brasileiro pode ser mais ético que ele, vive repetindo. No ABC paulista, abraça as massas e recorre ao surrado discurso contra as elites, apostando na criação do chavismo tupiniquim, caso as chamas das CPIs ameacem consumir sua imagem. O coronel Hugo Chávez até já emprestou a idéia de usar o emblema da República no colete. Usa o Francisco que devolveu uma mala encontrada com US$ 10 mil num aeroporto como ícone da moral, possivelmente desejando fazer contraponto à maior vitrine de malas da corrupção da história brasileira, exibida em pleno governo petista. No Sul, mostra-se indignado contra a bandalheira e pede apuração, doa a quem doer. Tudo muito bonito. Mas a pergunta-chave continua sem resposta: Lula sabia ou não sabia do mensalão para juntar deputados à base governista? Ele não respondeu.

Certos governantes se exercitam na arte de autocontemplação. Como se fossem condenados por Narciso a se apaixonar pela imagem que desenharam para as multidões e a se encantar com as próprias palavras. A psicologia mostra também que, em momentos de perigo, alguns deles têm propensão a se transformar em semideus, colocando-se acima dos mortais. Jânio Quadros blefou ao entregar a carta de renúncia, pois esperava que as massas corressem ao seu encontro. No auge da crise que culminou com o impeachment, Collor de Melo se via como um São Jorge brandindo a espada, à espera dos descamisados para defendê-lo. Nixon, cercado por uma cortina de ferro, sentia-se todo-poderoso, jamais imaginando cair nas malhas do escândalo de Watergate. A renúncia era coisa impronunciável. Trancado no Kremlin, Stalin julgava-se onisciente e infalível: “O que há de ser do país sem mim?” Morreu alucinado. O grotesco Idi Amin, de Uganda, peito cheio de medalhas, dizia ao povo que em sonhos conversava com Deus. Perguntaram-lhe: “O senhor sonha com freqüência?” E ele: “Só quando necessário”.

Lula deve estar sonhando com o poder divino. Só mesmo quem se acha onisciente pode querer aparecer como o único detentor da verdade, da ética, da moral e dos bons exemplos. Até se admite que o presidente tem carisma para gastar. Continua a ser o símbolo mais forte da dinâmica social no Brasil em todos os tempos. Mas tal condição não lhe dá direito de abusar do dom de bom palanqueiro para mistificar as massas.

Aos mais desatentos é bom lembrar que o presidente está querendo uma agenda positiva para o País. Se a expressão é essa, convenhamos, o País está trilhando uma agenda negativa. E a responsabilidade não pode ser atribuída ao Congresso Nacional. A metástase cancerosa espalha-se por corpos parlamentares, mas teria sido engendrada nos subterrâneos do Poder Executivo. Ademais, uma agenda positiva combinada com Severino Cavalcanti já nasce negativa. Que moral teria o presidente da Câmara para endossar uma ação propositiva, quando nomes da cúpula do PP aparecem nas listas sobre mensalão? Por outro lado, é compreensível o esforço para blindar o presidente, a fim de que seu governo possa chegar ao final e garantir a estabilidade da economia, condição para a confiança dos investidores.

Se as provas incriminarem o ex-ministro José Dirceu, por exemplo, que já foi acusado de saber dos empréstimos ao PT por Renilda de Souza, mulher de Marcos Valério, a situação resvala para cima e para baixo. Dirceu não vivia dizendo que não fazia nada sem o conhecimento de Lula? Como pode o presidente da República desconhecer uma arquitetura desenhada a seu redor, com tantos arranjos e pontos de contato e, mais que isso, reunindo a nata do PT?

A liturgia presidencial – falas em palanque, recorrência aos valores da ética e da moral, luta contra a corrupção – faz parte da estratégia de Lula de parecer um ente divino. Nistzsche disse: “A apoteose da aventura humana é a glorificação do homem-deus”. Apoteose a que os mandatários costumam recorrer na iminência de tragédias.

O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor titular da USP e consultor político

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