Eles não são galãs de seriados, mas uma vez por semana aparecem nas telas da TV e nas fotos dos jornais ocupando espaços de entrevistas e depoimentos. Aproveitam a oportunidade para se fazer notados. Para isso, encontraram nos trajes um dos caminhos mais curtos para chamar a atenção. Os vereadores de Bauru são unânimes: um terno bem cortado e uma apresentação alinhada rendem dividendos políticos positivos.
Desde que a TV Câmara entrou no ar, em agosto de 1998, o comportamento dos parlamentares se alterou. Afinal, eles passaram a invadir a sala de milhares de lares, cujos moradores têm por costume acompanhar as sessões semanais do Poder Legislativo. Perceberam, no decorrer do laboratório de adaptação, que a imagem plástica de um político é forte componente no imaginário dos eleitores.
A partir daí, a transformação ocorreu naturalmente. Hoje, tanto os vereadores veteranos quanto os novatos falam de moda e elegância com naturalidade. Se não eram entendidos no assunto, passaram a se esforçar e a vasculhar, com a ajuda de suas mulheres e filhos, o fantástico mundo das cores, suas variedades e combinações.
Pai de um estilista que atua em Londres, Futaro Sato (PDT) diz que tem por obrigação andar alinhado. “Sempre me cuidei. Na época em que meu filho ainda morava em Bauru, seguia suas orientações. Agora, minha mulher e minha filha é que me orientamâ€, diz o parlamentar.
Na avaliação dele, junto com o filho estilista, elas formam um trio exigente. “Meu filho me fez abandonar alguns blasers que, segundo ele, só serviam para apresentação em karaokêâ€, conta. Para se manter sempre na moda, o pedetista tem por costume comprar gravatas em suas viagens ao Exterior. “Tenho mais de 30. Comprei algumas no Japão e outras na Inglaterraâ€, diz.
Sua mulher, Maria, revela que o vereador é comportado e aceita com tranqüilidade as sugestões. “A aparência não é só importante no mundo político, mas em qualquer setor. Eu e minha filha fazemos isso para que as combinações não destoem muitoâ€, comenta.
Embora acredite que não é a apresentação visual que dá credibilidade a um político, o vereador Toninho Garmes (PSDB), presidente da Câmara Municipal de Bauru, gosta de ternos bem cortados e cores discretas. Filho de alfaiate e sendo a mãe costureira, o tucano convive desde pequeno com o mundo da moda. “Tenho conhecimento das combinações de cores. Gosto de trajes sóbrios, que não ferem os olhos. Não dá para emplacar um vermelho com amarelo, por exemploâ€, dá a dica.
Aos 62 anos de idade, Garmes é da época em que o uso do terno fazia parte do cotidiano do brasileiro. “E as funções pelas quais passei - delegado de polícia, juiz, consultor da Câmara e advogado - sempre me obrigaram a andar com ternoâ€, diz. Mas o tucano deixa claro que andar alinhado não é sinônimo de vaidade. “As atitudes de um homem perante a sociedade é que vão lhe dar créditoâ€, sentencia.
Acostumado por muitos anos a vestir diariamente a farda do Corpo de Bombeiros, o vereador Arildo de Lima Jr. (PP) confessa que não foi fácil emplacar o uso do terno no seu cotidiano após assumir a cadeira de parlamentar em janeiro passado. “Não sou uma pessoa vaidosa. Minha preocupação não é nem com a elegância, mas sim trajar a vestimenta adequada no ambiente adequadoâ€, observa.
O parlamentar, porém, confessa que pede a ajuda da mulher para compor seu guarda-roupa. “O toque e a sensibilidade feminina são importantes quando o assunto é modaâ€, elogia. Patrícia, sua esposa, concorda. “Sempre exponho minha opinião. A aparência é o cartão de visitas de uma pessoaâ€, afirma. Fã do marido, ela está feliz com a mudança de atuação. “Prefiro ele de terno. Ficou mais elegante e eu ainda mais apaixonadaâ€, confessa.
No embalo dos discursos que pregam a simplicidade, o vereador Faria Neto (PDT) é fã de ternos prontos. “Com o dinheiro que teria de gastar para mandar fazer um terno no alfaiate, compro três prontosâ€, garante. O pedetista diz que a formalidade nos trajes não faz parte do seu cotidiano. “Só visto para as sessões legislativas e eventos públicosâ€, comenta.
Na avaliação dele, o uso diário do terno poderia deixar os freqüentadores de seu gabinete constrangidos e inibidos. “Gosto de usar camisa pólo e calça jeans no dia-a-dia. Sua mulher, Marli, não reclama da simplicidade do marido. “Cuidar de homem é muito fácil. Apesar do Faria ter bom gosto, procuro sempre estar junto na hora de comprar os ternos. No cotidiano, fico de olho e, qualquer deslize, chamo a atençãoâ€, diz.
Descuido compromete imagem e credibilidade
Terno amassado, sujo e sem caimento provoca prejuízos à imagem de quem o está usando. Portanto, o que pode ser sinônimo de credibilidade também pode virar o inferno astral de uma pessoa. A dica é da consultora de moda Maria Fernanda Hinke. “Você é aquilo que vesteâ€, afirma.
Na opinião dela, o vestuário masculino é limitado. â€œÉ difícil de errarâ€, garante. A consultora explica que o traje mais comum usado pelos vereadores de Bauru é conhecido por costume. “Terno mesmo é formado pelo trio da calça, blaser e coleteâ€, ensina.
Para ela, não basta acertar nas combinações e no corte. â€œÉ preciso dar manutenção. Todo terno ou costume deve sempre estar bem passado e limpo. Com certeza, a pessoa será muito mais notada se cumprir essa dicaâ€, observa.
A escolha da cor pode apontar significados. “O cinza demonstra inteligência. É a cor da nossa massa encefálica. O azul marinho transmite credibilidade. O marrom já não é muito bem aceito. Era a cor usada para identificar os serviçais da Idade Média e pode significar inferioridadeâ€, comenta.
Para ter certeza de que o caimento de um terno ou costume está perfeito, basta observar os ombros. “O ombro deve estar exatamente em cima. Outro detalhe importante é a barra da calça. Não pode ficar curta, tipo ‘pula-brejo’. A barra deve desabar sobre o sapatoâ€, ensina.