Bairros

Dilema marca nascimento de entidade

Sérgio Pais
| Tempo de leitura: 4 min

Dentre as comunidades e entidades que estão recebendo ajuda da Secretaria das Administrações Regionais (Sear) para se organizar está um grupo de moradores da Vila Monlevade, pequeno bairro localizado na região leste próximo ao Horto Florestal.

O grupo, no entanto, defronta-se com uma certeza e um dilema: sabe que precisa, urgentemente, se organizar enquanto comunidade, mas ainda não decidiu se o faz através da criação de uma associação de moradores ou de uma organização não-governamental (ONG).

Segundo o cabeleireiro Reinaldo José Reche, um dos líderes do grupo, a necessidade de organização da comunidade surgiu principalmente em função da existência, no bairro, de uma grande área pública cuja utilização é feita sem regras e sua manutenção “bancada” informalmente pelo próprio moradores.

Reche refere-se a uma área de aproximadamente 13 mil metros quadrados, que já pertenceu à extinta Ferrovias Paulista S/A (Fepasa) e hoje é de propriedade da Companhia Paulista de Obras e Serviços (CPOS), empresa de economia mista vinculada à Secretaria de Energia, Recursos Hídricos e Saneamento. A CPOS tem entre suas finalidades administrar e conservar propriedades do Governo do Estado de São Paulo ou de entidades sob seu controle.

Reche conta que, desde a fundação do bairro, em 1951, a área abriga um tradicional campo de terra que já foi utilizado por diversas escolinhas de futebol. Atualmente, a área continua sendo usada para o lazer das crianças do bairro, mas sua conservação é feita pelos moradores, que inclusive fizeram toda a jardinagem da calçada que cerca o local.

“Como já cuidamos da área, que está sendo inventariada, queremos agora requisitar um convênio para que possamos dar um fim social para ela”, diz Reche. Mas para isso, reconhece, é necessário que uma eventual cessão de uso seja feita a uma entidade juridicamente constituída. “A necessidade de organização é para termos crédito junto às autoridades”, justifica.

O cabeleireiro confirma ainda que o desejo de organização também foi reforçado depois que moradores do bairro começaram a participar de atividades promovidas pela administração municipal, como as relativas à elaboração do Orçamento Popular. “As reuniões do Orçamento ajudaram a despertar a vontade de nos organizarmos”, confirma.

Num primeiro momento, o grupo de moradores da Vila Monlevade defendeu a criação de uma ONG. “Já que fazemos a jardinagem e plantamos árvores em toda a área, optamos por uma ONG de caráter ambientalista”, explica. Os moradores defendem ainda a necessidade de se lutar pela preservação de uma “mancha” de vegetação de cerrado encravada na área em questão.

Além desta vocação ambiental e das supostas facilidades de acesso a financiamento externo, os objetivos dos moradores também vão ao encontro à definição formal de uma ONG - “organização constituída pela vontade autônoma de mulheres e homens, que se reúnem com a finalidade de promover objetivos comuns de forma não lucrativa”.

Mas durante as primeiras reuniões informais do grupo os moradores levantaram uma série de problemas do bairro ligados à limpeza de terrenos, poda de árvores, pavimentação de ruas e iluminação pública, numa linha reivindicatória que é característica de uma associação de moradores.

Segundo Reche, o principal temor na opção por uma associação de moradores é que há registros da existência de uma entidade similar, já desativada há anos. “Precisamos levantar a situação da antiga associação, pois não queremos assumir dívidas e encargos gerados no passado”, explica. “Além disso, é comum políticos quererem dominar associações de moradores e disso a gente quer distância”, acrescenta.

Apesar das dúvidas, a tendência parece ser mesmo a criação de uma associação de moradores. Num encontro informal na semana passada, Reche e os aposentados Darci da Costa Carreira e Nilze Sponchiado apresentaram uma série de atividades previstas que indicam a preferência.

Já estariam planejadas, na futura entidade, um núcleo de artes para as crianças e um núcleo ambiental, com a participação de estudantes da Unesp. Além disso, a abrangência da associação não seria restrita à Vila Monlevade, com sua área de atuação incluindo também o Jardim Cruzeiro do Sul.

A definição sobre os rumos do movimento de organização popular da Vila Monlevade começa a acontecer a partir do próximo dia 18, quando acontece a primeira reunião formal do grupo na “sede provisória” da entidade, a garagem da casa da dona Nilze. Na ocasião, será elaborada a primeira ata da entidade e convocada uma nova reunião para definição entre ONG e associação de moradores.

“Antes a gente fazia sozinha as coisas pelo bairro. Agora, já temos uma ‘turminha’”, anima-se Sponchiado. “Seja ONG, seja associação, o importante é que a idéia de organização é boa. É uma semente que independe de sua definição”, completa Reche.

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