O governo brasileiro está prestes a perder, pela segunda vez, o prazo determinado pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para eliminar a hanseníase como problema de saúde pública. A meta era reduzir o número de casos para menos de um em cada grupo de 10 mil habitantes até dezembro desse ano. Mas, em algumas regiões brasileiras, esse índice ainda ultrapassa os 7 casos por 10 mil.
De acordo com o médico infectologista Fernando Monti, um dos diretores do Instituto Lauro de Souza Lima, de Bauru, o Brasil é o País de maior relevância em termos de números de casos nas Américas. “Em 2003, havia algo em torno de 82 mil casos de hanseníase na América Latina. Destes, 78 mil eram no Brasil”, comenta.
De acordo com a OMS, a hanseníase está erradicada em praticamente todo o mundo. No entanto, ela ainda representa uma ameaça à saúde pública em 12 países. O Brasil ocupa o sexto lugar nessa lista em incidência da doença, perdendo apenas para países africanos. Um fato vergonhoso quando se considera que o tratamento existe há 50 anos, é gratuito e, quando iniciado, interrompe a cadeia de transmissão da bactéria.
O governo brasileiro já havia de comprometido com a OMS em combater a hanseníase até o ano 2000 e não conseguiu. Em 1999, esse prazo foi estendido até 2005, quando representantes dos 12 países endêmicos firmaram a Aliança Global para a Eliminação da Hanseníase. A poucos meses do fim do ano, tudo indica que o prazo terá de ser estendido mais uma vez.
A previsão, agora, é que a meta de menos de um doente para cada 10 mil habitantes seja atingida até 2010. Mas dessa vez, se o compromisso não for cumprido, a OMS pode deixar de fornecer gratuitamente os remédios que combatem a doença.
Segundo Monti, especialistas têm opiniões muito divergentes a esse respeito. Os otimistas acham que ainda dá tempo para este ano, os pessimistas afirmam que a meta não será cumprida nem em 2010. “Nós, do instituto, tentamos manter uma visão mais isenta e técnica possível. Acredito que deveremos atingir a meta na média nacional, mas não de forma homogênea, ou seja, ainda haverá regiões endêmicas”, prevê.
Sobre a eventual suspensão no fornecimento de medicamentos, Monti pondera que 2010 é um cenário muito longínquo. Na opinião dele, não dá para saber como estará o mundo até lá e a medicina tem muito a evoluir em cinco anos.
“É evidente que a suspensão traria um impacto negativo, pois o repasse de medicamentos desonera o País. Mas o Brasi tem condição de garantir medicamentos, como já ocorre com outras doenças como a tuberculose e a aids. Claro que seria um transtorno, mas não seria um desastre, como se isso ocorresse em um país africano”, tranqüiliza.
Revisão
O governo brasileiro vem correndo contra o tempo para tentar atingir a meta de reduzir o número de casos de hanseníase a menos de um doente para cada 10 mil habitantes. A mais nova frente de ações é a revisão dos registros nacionais. Técnicos descobriram que muitos pacientes apontados na lista como doentes já foram curados há anos.
“Nosso banco de dados não usava a mesma sistemática de outros países do mundo. Então, o Ministério da Saúde quer fazer um pente fino no sistema para identificar quantos são realmente os casos de hanseníase no País”, comenta.
Segundo ele, o primeiro passo nesse sentido foi desenvolver um projeto de validação de diagnóstico da doença no País, o que foi feito pelo Instituto Lauro de Souza Lima.
“Agora, técnicos vão percorrer os Estados e municípios com maior incidência da doença para rever esses registros. Só depois desse trabalho ser concluído e de termos âncora em números confiáveis é que teremos uma visão real da prevalência da hanseníase no Brasil”, defende.
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Entenda a doença
• A hanseníase é uma doença crônica, causada pela bactéria Mycobacterium leprae. Se não for diagnosticada em fase inicial, pode causar deformidades ou mesmo amputação de membros
Transmissão
• A bactéria causadora da hanseníase é transmitida pelo ar. Porém, como acontece com gripes e resfriados, são poucas as pessoas que adoecem quando entram em contato com o germe
Sintomas
• Manchas brancas ou avermelhadas que não coçam, não dóem e são insensíveis ao toque
• Dor nos nervos de braços, mãos, pernas ou pés
• Formigamento ou dormência pelo corpo
• Caroços no corpo
Como tratar
• A hanseníase tem cura. Depois de confirmar o diagnóstico, o paciente é submetido a um tratamento com remédios (poliquimioterapia), que são distribuídos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Mas para garantir a cura da doença é fundamental seguir à risca as recomendações médicas. Interromper o tratamento antes da hora pode agravar a doença
Como prevenir
• Pessoas que têm hanseníase deixam de transmitir a bactéria assim que iniciam o tratamento. Por isso, o diagnóstico precoce é a melhor forma de prevenir que outras pessoas se contaminem
Fontes: Ministério da Saúde e Agência Estado
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Referência mundial
O Instituto Lauro de Souza Lima de Bauru é considerado centro de referência em pesquisas dermatológicas, especialmente no tratamento da hanseníase e de suas conseqüências.
O instituto foi criado em 1933 como Asilo-Colônia Aymorés, onde eram internados (compulsoriamente) os portadores de hanseníase de toda a região. O local só ganharia status de hospital no final da década de 1960, quando já havia tratamento para a doença, tornando-se instituto de pesquisas em 1989.
Por sua vocação de pesquisa, o instituto recebe estudantes e estudiosos do mundo todo, sendo um dos centros de referência em pesquisas inclusive para a Organização Mundial de Saúde (OMS).
Mensalmente, uma média de 2 mil pessoas procura o instituto em busca de tratamento para a hanseníase e outras doenças dermatológicas, o que faz o total de atendimentos superar a marca de 23 mil anuais.