Cultura

Vitória Rock suspenso

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Em uma cidade que já sofre pelo reduzido número de opções culturais gratuitas à população, mais uma iniciativa é atropelada pela falta de estrutura e de conscientização do público. O projeto Vitória Rock, que desde 2002 apresenta mensalmente shows de bandas e músicos de todos os subgêneros do rock’n’roll no Anfiteatro Vitória Régia, foi suspenso ontem pela Secretaria Municipal de Cultura (SMC). A decisão vem em resposta a constantes ocorrências de vandalismo, brigas e abuso de bebida alcoólica nos domingos de eventos.

Segundo a assessoria de imprensa da secretaria, o motivo para o adiamento das apresentações, sem data prevista para retorno, é a necessidade de reestruturação do Vitória Rock, visando oferecer melhores condições de segurança para o público, que chega a 4 mil pessoas no parque, em média. Em 2003, o local já havia sido interditado pelo Corpo de Bombeiros por apresentar pontos sem segurança para o público.

Na opinião do secretário municipal de Cultura, José Augusto Ribeiro Vinagre, a situação dos eventos de rock no Parque Vitória Régia vinha se agravando há algum tempo. “O Vitória Rock sempre reuniu muita gente e estava para acontecer algo ruim; o local não tem estrutura para atender com conforto esse público. Não queremos ignorar o público nem acabar com o projeto. Precisamos retomá-lo com as condições ideais”, frisa.

Entre os principais problemas do parque e do anfiteatro – razões para a suspensão do projeto –, está a atual situação calamitosa dos banheiros, as ocorrências de vandalismo e a falta de segurança. “Não podemos negar, essa questão era falha. O vandalismo não é generalizado, a maioria das pessoas é tranqüila, mas há problemas e reclamações de vizinhos do parque”, resume Vinagre.

O comandante da 1.ª Companhia da Polícia Militar (PM), capitão Jorge Duarte Miguel, afirma que já havia sido detectada a necessidade de diversas melhorias no local, no tocante à segurança pública, para receber grandes eventos. Após as comemorações do aniversário de Bauru no parque, a PM elaborou um ofício com sugestões, enviado à SMC. Entre os principais pontos, está a necessidade de melhoria na iluminação nas dependências do anfiteatro.

“Sem luz, fica mais difícil o policiamento preventivo. Há pontos mais escuros nos quais a polícia freqüentemente faz abordagem de grupos isolados para o consumo de bebida ou outras drogas”, observa.

Para Guilherme Augusto Arão, guitarrista da banda Brutal Factor, que já se apresentou diversas vezes no Vitória Régia, o projeto cultural é importante para a cultura municipal e merece atenção. “Numa cidade que praticamente não promove eventos, seja de rock ou de outros tipos, precisamos do espaço. Não são somente os eventos de rock no anfiteatro que têm problemas”, indica, referindo-se a outros shows e apresentações realizadas no local.

Festival e cercas

Para este domingo, já estava agendado, dentro do projeto, a abertura do Festival Tardes Radioativas, que contaria com quatro bandas independentes apresentando trabalhos autorais. O show deve ser realizado no próximo dia 28, no Jardim Pagani. Gilvá Francisco Silva Júnior, músico e coordenador do festival, lamenta a suspensão do projeto mas apóia a decisão de reestruturar o Vitória Rock. “Houve muita confusão nos últimos eventos. Há 17 anos, freqüento esse espaço e a coisa vem ficando complicada há alguns anos, com pessoas mal-intencionadas”, aponta.

O músico apresentou à SMC um projeto que sugere a cobrança de ingressos para as apresentações do Vitória Rock. Para Silva Júnior, a questão da segurança no local seria solucionada com a instalação de uma cerca ou grade, limitando o acesso ao anfiteatro, ao menos nos dias de shows.

“O público é relativamente grande nos eventos. Com a cobrança de um ingresso simbólico, de R$ 2,00, teríamos uma renda para pagar o aluguel do som, a segurança particular e a manutenção dos sanitários. O parque é o cartão postal da cidade, que não pode ser interditado nem ficar jogado às traças. A maneira de manter o Vitória Rock seria a limitação ao público”, comenta Silva Júnior.

Na opinião de Vinagre, a proposta ainda necessita de discussão mas é interessante, pois o projeto poderia tornar-se auto-suficiente. “Haveria a possibilidade de contratar segurança e banheiros químicos, coisa que a SMC não tem condições de fazer. Sobre o cercamento provisório ou definitivo, com alambrados, vamos discutir com o próprio arquiteto do parque (Jurandyr Bueno Filho). A idéia é que o Vitória Rock volte em setembro ou outubro”, garante o secretário de Cultura.

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Associação

Está marcada para a próxima terça-feira, às 20h, no Centro Cultural Carlos Fernandes de Paiva, uma reunião aberta com o objetivo de criar a Associação de Bandas Independentes de Bauru e região. De acordo com Gilvá Francisco Silva Júnior, a proposta é reunir os músicos em uma entidade sem fins lucrativos, que possa defender coletivamente os interesses da categoria, aproveitando a suspensão do projeto Vitória Rock para ampliar as discussões sobre os eventos, leis de incentivo e profissionalização.

Desde o início do ano, a Secretaria Municipal de Cultura já apoiou a criação das associações locais de dança, teatro e o Cinelube. “Queremos um espaço aberto a todas as pessoas ligadas à música, mas precisamos saber o que está acontecendo em Bauru, com a intenção de fortalecer os movimentos culturais e organizar”, comenta Silva Júnior, que é músico e produtor de eventos de rock. Mais informações pelos telefones (14) 3235-1072 e 3212-2668.

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