O conceito de animal político se ajusta bem ao corpo do chimpanzé. A vida desse primata é uma contínua relação de dominação-submissão, luta pelo poder, busca de alianças e coalizões transitórias e instrumentais, tudo pelo comando do bando. Na política, a situação é semelhante. O ator mobiliza potenciais para conquistar o poder. E luta permanentemente para ampliar influência. Vende apoios, faz pressões, passa por cima do ideal coletivo. “O fim sou eu mesmo”, esse é o ideário dessa classe de políticos. Em nome dele, estamos assistindo ao maior desfile de eventos escabrosos de nossa contemporaneidade, tornados públicos porque os políticos-chimpanzés se agridem cegamente no conflito para ver quem leva o pedaço maior do território.
O animal político também ganha o corpo de Maquiavel, formado para preservar o poder do Príncipe sob a égide de um projeto de Estado. Quando isso ocorre, os chimpanzés usam inteligência mais desenvolvida, ajustam valores ao projeto de um grupo, subordinando, portanto, os interesses individuais ao ideário social. Os ciclos autoritários por que passamos foram pontuados pela visão maquiavélica de defesa social. Naqueles instantes, a força do chefe personificava um projeto mais amplo da coletividade, como bem o demonstram o ciclo getulista, voltado para a implantação das bases do nacional-desenvolvimentismo, e o ciclo militar (1964-1985), inspirado na defesa de dois pilares: segurança e desenvolvimento.
Os governos pós-ditadura militar procuraram, cada um a seu modo, implantar programas de amplo espectro social, mas foram atropelados pela estratégia-primata de dividir as fatias do poder pelos bandos. Os tucanos liderados por Fernando Henrique pensavam ficar no poder durante 20 anos. Não conseguiram. Os petistas imaginavam dominar a cena com um projeto eterno pilotado por José Dirceu. Estão sendo fragorosamente estraçalhados por primatas que começaram a se engalfinhar no próprio abrigo. O PT não atinou para a idéia de que a cultura egocêntrica no Brasil se sobrepõe à cultura sociocêntrica, esta fincada sobre as estacas da negociação coletiva e da solidariedade. Para satisfazer a competição feroz da classe política, a gestão maquiavélica faz permanentes concessões ao estilo chimpanzé, e este acaba ditando as páginas dos capítulos da história recente. O início do governo Lula era um oceano de esperanças coletivas. Esboçava-se uma estratégia de inserção social com base no combate à fome. No meio de tanta improvisação, os primatas foram ganhando a guerra.
A crise sistêmica que percorre as veias da Nação, desde os tempos das capitanias hereditárias, ganha intensidade à medida que se expandem os fatores internos - hipertrofia da burocracia estatal, imobilização e desmotivação de quadros, apadrinhamento político - e os fatores externos, como pasteurização dos partidos, fulanização política e tensões entre Poderes. Daí a necessidade de se promover urgente reforma do Estado com a finalidade de dotá-lo de capacidade operacional, implicando até alteração do sistema de governo, este atual presidencialismo concentrador de forças. O País ressente-se da falta de um projeto nacional de longo prazo, com definições de eixos, espaços estratégicos a serem ocupados, linhas de ação, recursos e formas de aplicação.
O jeitinho brasileiro de postergar integra o nosso ethos. As culturas chimpanzé e maquiavélica de fazer política - descritas pelo economista chileno Carlos Matus em seu ensaio sobre Estratégias Políticas - determinam a qualidade de padrões e costumes. O fio de esperança está na organização social, forte e simbolizada pelas cerca de 500 mil organizações não-governamentais que animam a sociedade, entre as quais cerca de 300 mil estão cadastradas no IBGE. Daí poderá vir a mudança. Alain Touraine, o pensador francês, prega o aumento da capacidade de intervenção do Estado como forma de um país atenuar desigualdades. Entre nós, tal pregação não satisfaz, porque um Estado muito intervencionista fecha as comportas da liberdade, e o Estado forte de hoje acaba de ser flagrado como espaço de conquista para um ambicioso projeto hegemônico de poder. Nele, os chimpanzés continuam a colecionar vitórias. Resta confiar nas luzes que brilham na organização social e esperar que daí saia um estilo mais nobre e cooperativo de fazer política, algo mais próximo ao modo de agir de um Ghandi, de quem se dizia: “Na presença dele, qualquer um sente vergonha de fazer algo indigno”.
O autor, Gaudêncio Torquato, é jornalista, professor da USP e consultor político