A história de Lençóis Paulista poderia ser outra se a vocação da cidade em meados de 1940 tivesse prosperado. Mas a vida dos lençoenses sofreu uma reviravolta com a chegada das usinas. Dos cerca de 50 alambiques que fabricavam cachaça, somente 10% persistiram e continuam fabricando a famosa ‘branquinha’.
Os demais proprietários de plantações de cana e de alambiques optaram por arrendar suas terras para as usinas e deixaram a atividade de lado.
Depois de mais de 50 anos, a história da cachaça em Lençóis está sendo resgatada e em breve será contada em um novo livro do morador Florindo Paccola, de 73 anos. Misto de contabilista, escritor e pesquisador, Paccola é, antes de tudo, um dos mais antigos moradores e um apaixonado pela cidade.
Ele conta que por volta de 1920, o município de Lençóis Paulista vivia puramente da lavoura. “Predominava o café, a cana-de-açúcar e outras pequenas culturas. A população morava e trabalhava mais na área rural.”
As transformações ocorridas nesse período no Brasil todo levaram muitos dos lavradores a se mudarem para a cidade. “Nessa época surgiram as usinas de açúcar e os cerca de 50 engenhos que existiam começaram a desaparecer. Foi quando surgiram as usinas Barra Grande e São José, que embora esteja instalada em solo da cidade de Macatuba tem sua administração em Lençóis. Muita gente de fora veio trabalhar aqui.”
A fabricação de pinga era, nessa época, uma fonte importante de arrecadação para o município, lembra. “Os alambiques fabricavam pinga e vendiam no atacado. Poucos engarrafavam. A maioria vendia em barris e cartolas. Nossa cachaça era comercializada para a Tatuzinho e outras empresas que hoje são famosas.”
Atualmente, informa o morador, há cinco ou seis alambiques funcionando. “Eles fabricam a pinga e vendem em caminhão tanque. Dois ou três deles vendem no varejo.”
Para Paccola, se as atividades tivessem prosseguido, hoje Lençóis poderia ser a Capital da Cachaça. “As usinas entraram e os alambiques deixaram a atividade. Os atuais fabricantes estão ganhando dinheiro.”
Outra bebida que também tem representação na cidade é a fabricação de vinhos, conta o morador. “Os imigrantes italianos introduziram a produção de vinhos artesanais. Há alguns fabricantes em Lençóis. Parte deles fabricam somente para consumo próprio.”
O mercado em expansão para o açúcar e posteriormente para o álcool mudou o perfil da cidade e os alambiques ficaram em segundo plano. Porém, passados 50 anos, eles podem se tornar o mote para um turismo ‘caipira’, é o que espera o prefeito da cidade, José Antonio Marise.
De acordo com ele, a cidade é nacionalmente conhecida pela cachaça. “Temos a fama, o nome, mas dos 50 engenhos temos cinco ou seis em atividades. Alguns bastante famosos pela qualidade do produto. O mercado é bastante disputado e sofisticado. Queremos retomar a produção da cachaça e produzir com qualidade. A produção anual é em torno de 15 milhões de litros.”
Na opinião de Marise, a cidade perdeu espaço nesse mercado. “Perdemos muito espaço nos últimos 30 anos. Entendo que ainda há muito a ser ocupado, por isso precisamos investir.”
Herança dos espanhóis
A fabricação de balas e bolachas na cidade de Lençóis Paulista foi uma herança dos imigrantes espanhóis, segundo Paccola. A história completa ele conta em seu livro; Balacha, uma mistura de bala com bolacha.
As famílias de espanhóis chegaram na cidade e começaram a fabricar balas no fundo do quintal de uma das casas. “Eles faziam e enrolavam as balas em pequenos espaços no quintal das casas. Enfrentaram várias dificuldades, mas não desistiram.”
A fabricação de bolachas foi posterior, mas introduzidas pelas mesmas famílias. “Depois começaram a fazer os biscoitos. Nessa época deixaram o quintal e foram para outro local. Eles passaram por três pontos. A atividade deu certo e surgiu a Zabet, hoje Adria.”