Entra em vigor hoje a determinação da Secretaria de Estado da Educação de São Paulo de que as cantinas das escolas estaduais devem colocar à venda alimentos mais saudáveis. A medida já provocou mudança no cardápio dos estabelecimentos, mas os comerciantes ou entidades que administram as cantinas ainda têm muitas dúvidas.
Ontem, véspera da portaria entrar em vigor, o Estado ainda não sabia como fiscalizar o cumprimento da norma que publicou em março deste ano. Uma reunião realizada ontem entre o secretário de Educação, Gabriel Chalita, e técnicos do Departamento de Suprimento Escolar (DSE), responsável pela fiscalização das cantinas, definiria as lacunas da determinação estadual.
A maior dúvida dos comerciantes é sobre o que não pode ser comercializado. A reportagem teve acesso à portaria, que anexo informa que “não existe proibição e sim recomendação” dos alimentos que podem ser vendidos nas cantinas. Na existência de lacunas, cada comerciante está fazendo a sua própria adaptação ao cardápio sugerido.
A cantina da escola estadual Mercedes Paes Bueno, no Higienópolis, é administrada pelos comerciantes José Duarte Garcia Neto e Rita de Cássia Claus, que já adequaram grande parte dos produtos assim que foi divulgada a nova norma. No entanto, Neto tem dúvidas se ainda pode vender os salgadinhos do tipo “isopor”, balas e até refrigerantes. “A portaria é confusa. Falta uma relação do que não pode vender”, afirma ele.
Do cardápio foram retirados os salgados fritos, como coxinha, quibe e hambúrger e também cachorro-quente. Eles foram substituídos pelos assados de presunto e queijo, esfirra de frango com catupiry ou calabresa com catupiry e enroladinho de salsicha. O freezer da cantina já expõe uma oferta maior de sucos como alternativa aos refrigerantes, ainda preferidos pelos alunos.
A estudante Luciana Santos Ramos, 14 anos, cursa a 8.ª série no Mercedes e demonstra não estar totalmente adaptada à mudança. A adolescente considera que os salgados assados são mais saudáveis, porém preferia o cachorro-quente e o hambúrguer. A mãe dela, Luzia de Souza Santos Ramos, aprova totalmente a mudança do cardápio saudável desde que a medida foi anunciada em reunião de pais e professores, há cerca de três meses. “Acho acertada porque adolescentes se alimentam muito mal. Só querem saber de pizza, lanche e fritura”, ressalta.
A cantina da escola estadual Luiz Zuiani, no Parque São Jorge, é administrada pela comerciante Márcia Martinez Campos que reclama que a portaria não é clara. “O que é proibido?”, questiona. Ela já eliminou do cardápio refrigerantes, fritura como coxinha, quibe e hambúrger.
Enquanto a cantina do Mercedes oferece salgado tipo “isopor”, a do Zuiani cortou a venda do produto. No rol de doces, também não há acordo entre o que oferecem as duas cantinas. No Zuiani, não há venda de balas enquanto o produto é fartamente comercializado no Mercedes.
Por isso, Campos também tem dúvidas sobre quais são os doces permitidos. Ela comenta que chocolate só pode até 30 gramas e cortou os pirulitos. Ao comparar a qualidade de alimentos, a comerciante lembra que a pipoquinha doce tem mais calorias do que o permitido, porém seria mais saudável por ser feita de milho, um produto natural. “O que está na portaria é vago”, ressalta.
Campos conta que a aceitação pelos estudantes do Zuiani não foi muito boa. Só na primeira semana em que ofereceu o novo cardápio, o movimento na cantina, segundo Campos, caiu em 40%. Ela acrescenta que agora as vendas se equilibraram.
A comerciante comenta que os alunos da 5.ª à 8.ª séries entenderam as mudanças. Todavia, a novidade desagradou os estudantes de adolescentes a adultos. “Pode-se dizer que à noite estão boicotando”, explica Campos, ao avaliar o inconformismo dos alunos do noturno.
Na escola estadual João Maringoni, no Núcleo Mary Dota, a mudança de oferta de alimentos também causou reclamações. A lanchonete, administrada pela Associação de Pais e Mestres (APM), vem implementando as novas regras aos poucos. A diretora do colégio, Roseli Alves Moreira da Silva, explica que o baixo poder aquisitivo dos alunos define a preferência por alimentos. A questão socioeconômica inviabiliza a venda de salgados. Os refrigerantes foram substituídos pelos sucos. A diretora explica que as barras de cereais serão a alternativa para os doces e balas. Silva conta que ontem recebeu a visita de um revendedor que ofereceu bebidas lácteas e barra de cereal.
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Pesquisa
Para decidir pela mudança de cardápio, a Secretaria do Estado da Educação ouviu em pesquisa pais de alunos, além de representantes da comunidade de 2.825 escolas de todo o Estado de São Paulo, durante os meses de janeiro e fevereiro deste ano. As principais reivindicações identificadas no estudo foram ações com a comunidade escolar sobre a importância da moderação no consumo de açúcares, gordura e sal, estímulo à troca de refrigerantes por sucos e bebidas lácteas, além da substituição de frituras por salgados e doces assados.
Também foi recomendado evitar venda de balas, gomas de mascar e salgadinhos industrializados em pacotes e permitir a comercialização de chocolates com até 30 gramas e com menos calorias. Segundo a pesquisa, 72% das pessoas consultadas consideram que a qualidade dos produtos comercializados pelas cantinas é satisfatória. Os outros 28% avaliaram que principalmente as frituras deveriam ser substituídas por assados e os refrigerantes por sucos.