Cultura

Da madeira à musica

Diego Molina
| Tempo de leitura: 4 min

Taquarituba, a 170 quilômetros de Bauru, na região de Avaré, é uma cidade que tem como curioso diferencial uma tradição que foi – literalmente – entalhada em sua história: a de fabricar violinos. Com cerca de 24 mil habitantes, a cidade atualmente conta com três fábricas de instrumentos de cordas – todas com o violino como principal produto –, em um modo de produção quase artesanal.

O trabalho manual e a sensibilidade no trato das matérias-primas garantem a qualidade nos instrumentos, comprovada na palavra de músicos e em reportagens de revistas especializadas. A fábrica mais antiga da cidade, de propriedade de Luiz Sebastião Rodrigues, começou de forma caseira, em 1980. Na época, sua produção era semelhante a de um luthier, apesar de não possuir formação em música.

“Toco contrabaixo desde os 12 anos, mas tocava apenas na Igreja, nunca estudei e não imaginava construir um instrumento na vida”, revela.

Religioso, Rodrigues relata que ouviu, durante uma pregação, uma mensagem que pareceu dirigida diretamente a ele. “A palavra dizia que um sonho ia mudar minha profissão e minha vida, material e espiritualmente, mas para essa transformação eu teria de passar por uma provação, uma queda muito grande”, conta ele, que até então trabalhava como pedreiro.

Após um período de problemas profissionais e pessoais, no decorrer de 1980, ele garante ter sonhado com alguém lhe dizendo o que fazer. “Dali, eu comecei a pôr em prática. Eu imaginava o rascunho (do violino), fiz os primeiros, as pessoas começaram a procurar e passei a viver desse trabalho. Os primeiros violinos foram feitos em casa, com as medidas que eu recebi nesse sonho. Posteriormente, para os outros instrumentos, aí sim começamos a buscar conhecimento e plantas, inclusive na Alemanha e Itália, mas o primeiro, eu fiz assim, nessa intuição”, afirma o empresário.

Atualmente, sua fábrica, com cerca de 30 empregados, é um negócio da família, no qual Rodrigues recebe ajuda dos filhos mais velhos. Um deles, inclusive, é luthier e responsável pela montagem de uma linha especial de violinos, que a empresa exporta. “Como produtor de violinos, eu era só mais um. A qualidade dos instrumentos é que fez nosso nome e o nome da cidade. Muitos artesãos saíram daqui e foram para outras fábricas”, aponta Rodrigues. A produção mensal chega a 200 violinos, 50 violoncelos, 20 violas e seis baixos.

Seguidores

Assim que a primeira fábrica de instrumentos prosperou, outros moradores decidiram seguir no mesmo ramo. Foi o caso do empresário Antônio Marcolino Neto, que trabalhava com oficinas e decidiu investir na música em 1989. “É uma tradição que começou na cidade”, destaca. Ele começou a produzir violinos em parceria com um jovem artesão que já tinha trabalhado com instrumentos. “Procuramos as coordenadas, as folhas e medidas, e começamos a fazer. Desde o começo, seguimos as proporções áureas dos violinos”, frisa.

Sua fábrica tem cerca de 20 funcionários e produz uma média de 100 violinos por mês, além de violas, violoncelos e contrabaixos. “A produção vai mais para São Paulo e outras capitais, vendemos para todo o Brasil”, diz.

Sobre a qualidade dos instrumentos produzidos em Taquarituba, Marcolino ressalta um elemento necessário para tal comprovação. “Damos cinco anos de garantia, porque garantimos mesmo a qualidade dos instrumentos da cidade. Nunca tive um retorno de instrumento para conserto”, afirma.

Quase artesanal

Para um bom violino, uma madeira de alta qualidade. Essa é a regra na produção dos instrumentos que as empresas da cidade fornecem para músicos amadores, profissionais e até mesmo orquestras, como a Sinfônica do Estado de São Paulo (Osesp). “Antes, concorríamos com os instrumentos chineses. Como não conseguimos ultrapassá-los na quantidade, optamos pela qualidade. Trabalhamos com madeira nacional e importada, para alguns casos. É preciso achar a sintonia, a harmonização, o timbre da madeira, para um instrumento ideal”, comenta Rodrigues.

Nas fábricas, o processo começa com a escultura do braço dos instrumentos, o corte dos tampos e o desenho do corpo. Depois da montagem e colagem, os instrumentos ganham detalhes, como os filetes que decoram seu corpo. Em seguida, eles são pintados ou encerados, para realçar as cores da madeira selecionada para sua fabricação. “Depois de montados, antes de enviarmos as encomendas, fazemos um teste de som para analisar se cada instrumento está como nós o projetamos”, observa o empresário.

Em meio aos artesãos e luthiers, a beleza dos violinos e violas e a grandiosidade dos baixos atestam que Taquarituba, mesmo sem saber, faz parte da história da música brasileira.

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