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Buani confirma ter pago ‘mensalinho'

Por Silvio Navarro e Luiz Francisco | Folhapress
| Tempo de leitura: 6 min

Brasília - O empresário Sebastião Alves Buani, 54 anos, confessou ontem ter pago um total de R$ 110 mil de propina ao presidente da Câmara, Severino Cavalcanti (PP-PE), entre 2002 e 2003, em troca da manutenção do contrato de arrendamento de um restaurante no Congresso Nacional.

Proprietário da rede de restaurantes Fiorella - um deles no décimo andar do Anexo 4 da Câmara -, Buani disse ter feito repasses mensais entre março e novembro de 2003, o chamado “mensalinho”, entregues em envelopes pardos no gabinete de Severino, então primeiro secretário da Casa.

Segundo Buani, que na última segunda-feira chegou a dizer que “não tinha dinheiro nem para pagar suas contas, quanto mais para pagar propina”, a maior parte dos pagamentos foram de R$ 10 mil mensais.

Além disso, disse ter pago outros R$ 40 mil em 2002, que, segundo ele, Severino teria cobrado sob o pretexto de ajuda para campanhas eleitorais quando negociou com o então primeiro secretário a renovação do contrato de concessão do restaurante na Câmara. Foi dessa negociação que surgiu o termo de prorrogação do contrato por cinco anos, assinado por Severino Cavalcanti.

Emocionado, Buani chorou ao fazer um relato detalhado do esquema de propina numa entrevista, realizada no auditório da Associação Comercial do Distrito Federal - o local foi cedido pela entidade. Cerca de 50 funcionários da empresa de Buani acompanharam sua fala. Antes de ele entrar no auditório, foram colocadas duas faixas em solidariedade: “Buani, estamos com você” e “Amor a Deus, à minha família e ao Brasil”.

Na entrevista, ele confirmou ter sido o autor de um documento intitulado “A história de um mensalinho”, no qual relata o esquema de propina. Segundo Buani, o texto foi escrito no Carnaval deste ano, pouco antes de ele se submeter a uma cirurgia cardíaca em decorrência de um infarto. “Estava com 98% da artéria obstruída e decidi fazer um rascunho para contar o que sabia.”

Entretanto, o texto, segundo ele, teria sido sacado dos arquivos de sua empresa pelo seu ex-gerente administrativo Izeilton Carvalho. Em depoimento à Polícia Federal, Izeilton admitiu ter levado a denúncia às revistas “Veja” e “Época”, que as publicaram no final de semana passado.

Conforme relato de Buani, o esquema de propina foi intermediado pelo deputado Gonzaga Patriota (PSB-PE), numa conversa durante uma caminhada pelos corredores da Casa. “Estava subindo a esteira para ir ao Anexo 4, quando encontrei o deputado Gonzaga Patriota. Comentei a ele: “Estou com um pedido (de assinatura do contrato) lá na mesa do primeiro secretário e o senhor, que é amigo dele, poderia ver se pode dar uma decisão final, ou pode ou não pode, ou é de lei ou não é. Pouco tempo depois, recebi um telefonema para comparecer ao gabinete de apoio do primeiro secretário.

Na conversa, o primeiro secretário me disse: “Você sabe, eu sou um homem que não tenho empresas, e neste ano de eleição a gente precisa de uma ajuda”, disse. Na conversa, de acordo com o relato de Buani, Severino pediu inicialmente R$ 60 mil para a renovação do contrato. Depois, falou em R$ 50 mil, mas o valor final acabou negociado em R$ 40 mil - metade seria para Severino e metade para Patriota. Ele disse não poder confirmar, entretanto, se o repasse teria chegado às mãos de Patriota. A maior parte do montante, de R$ 20 mil a R$ 30 mil, foi sacada do banco, e o restante saiu do caixa diário da empresa.

“Antes que quebrem meu sigilo, já pedi cópia do cheque e vocês verão o valor exato. Perto da data da assinatura do contrato, há um saque.” Buani disse ainda que o repasse poderia ser facilmente comprovado se, na época, o sistema de câmeras de vigilância da Câmara estivesse em funcionamento.

“Hoje a Câmara tem filmadoras em todos os corredores, parece um ‘Big Brother’, e se o sistema funcionasse (à época), a história seria facilmente comprovada porque não houve nenhum sigilo (...) O dinheiro foi entregue em envelopes pardos, nós saímos pelos corredores com o dinheiro em mãos, eu e ele (Severino) andando pelos corredores”, afirmou.

“Mensalinho”

Conforme o empresário, após o primeiro pagamento da propina - R$ 40 mil -, surgiu um novo fato. Em outubro de 2002, ele afirmou ter recebido uma carta da direção da Câmara questionando se havia interesse na renovação do contrato, em caráter emergencial, por mais um ano.

Como considerava ter conseguido com Severino a renovação até 2005, conforme o documento assinado pelo próprio deputado, Buani disse ter procurado um assessor do então primeiro secretário da Câmara para reclamar. “Não existe isso (a prorrogação), tenho um documento prorrogando o contrato, que está anexado à pasta do contrato”, disse o empresário.

Ao pesquisar a documentação nos arquivos da Câmara, ele disse ter notado que no lugar do ofício citado havia outro, assinado pelo próprio Severino, indeferindo o processo. Sentindo-se enganado pelo deputado, o procurou para reclamar. Aí, afirmou, teria recebido garantias de Severino de sua permanência na Casa.

“Fui direto ao Severino e ele me disse: “Não se preocupe, enquanto eu estiver na Mesa (Diretora) você estará na Casa.” No final de janeiro de 2003, Buani afirmou que Severino o procurou para uma reunião, na qual seria assinado um contrato emergencial prorrogando por um ano seu contrato. Naquele momento, ele já sabia que a prorrogação de cinco anos combinada anteriormente não estava valendo. Segundo Buani, Severino teria lhe dito: “Quero que você ganhe muito dinheiro porque você merece”.

Foi nessa conversa, ocorrida no dia 31 de janeiro de 2003, véspera de eleição para Mesa da Câmara, que surgiu o acerto do mensalinho. O deputado teria aproveitado o fato de o empresário estar aumentando em 30% o valor cobrado pelas refeições na prorrogação do contrato para fazer o pedido do “mensalinho”.

No encontro, segundo Buani, o hoje presidente da Câmara foi direto: pediu R$ 20 mil para assinar a prorrogação do contrato, mas ouviu do empresário que não havia como tirar esse valor “limpo” nos restaurantes da Câmara. “Ele bateu o pé, depois de muita negociação, e ficou em R$ 10 mil”, disse, afirmando ter passado mais de cinco horas negociando no gabinete do deputado. O empresário disse ter aceitado o pagamento porque se o contrato não fosse assinado naquele dia ele corria o risco de perder seu negócio. No dia seguinte, seria eleito um novo primeiro secretário, que poderia não aceitar a prorrogação do contrato.

De acordo com Buani, o primeiro pagamento do chamado “mensalinho” ocorreu em fevereiro de 2003 e se estendeu até novembro, quando ele teria rompido o acordo, atendendo a um pedido da filha, Gisele, à época diretora financeira da empresa Buani e Paulucci - cujo nome fantasia é Fiorella. Na primeira parcela, devido ao recesso, ele não conseguiu juntar os R$ 10 mil e deu R$ 5 mil a Severino. O hoje presidente da Câmara teria proposto que ele diluísse a diferença nos próximos dois pagamentos.

“Um dia minha filha me viu contando dinheiro numa quarta-feira para pagar a propina e disse: “Pai, sai dessa vida porque a gente não precisa disso. O senhor está deixando de pagar funcionários que moram longe e ganham pouco para pagar propina”, disse Buani, em meio a lágrimas.

Ele disse que, na seqüência, em represália à suspensão do suposto “mensalinho”, perdeu a concessão para exploração de quase todos estabelecimentos, incluindo o que chamou de suas “lanchonetes preferidas”. “Foi aí que comecei a ter problemas administrativos e tive de pagar mensais de R$ 11.580,00 de aluguel, mais R$ 2 mil de água e energia pelo restaurante do décimo andar”, afirmou.

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