Cultura

‘Auto-retrato’

Thaís da Silveira
| Tempo de leitura: 4 min

Se, como sugere o nome do show, o músico se define através de seu som, Caito Marcondes é um instrumentista multifacetado. Na verdade, são vários percussionistas em um só. Embora faça uma apresentação solo de percussão, denominada “Auto-retrato” (nome do CD homônimo), ao fechar os olhos, a impressão que fica é de que ele não está sozinho no palco.

O público de Bauru poderá conferir essa sensação hoje, no show que Caito apresenta no auditório do Serviço Social do Comércio (Sesc), dentro do projeto Sesc Instrumental. O repertório é composto por músicas de seu último álbum, que foi gravado ao vivo em São Paulo no ano passado.

O percussionista se reveza entre instrumentos como a marimba, o pandeiro, os caxixis, o xilofone, a voz e o hang - “brinquedinho” suíço que ganhou de Caito o apelido de disco-voador. “É um instrumento novo no mundo, inventado há três ou quatro anos”, explica.

A interatividade com o público é uma das marcas do show. “Eu procuro seguir as orientações do público, o que torna cada show um evento muito peculiar. Eu acabo envolvendo a platéia porque um show não é um evento que se faz sozinho, isolado. Sempre tem a participação da platéia, mesmo que não seja de forma direta, mas em termos da energia que o público emana. Isso funciona muito bem em qualquer língua. Na Europa, por exemplo, o show foi muito bem-sucedido”, conta Caito, que acaba de voltar de uma turnê pela Holanda, Alemanha e Bélgica.

Embora seja difícil traduzir em palavras, Caito define sua música como instrumental brasileira contemporânea, mas também acredita que o rótulo world music pode ser adequado. “Na verdade, eu me nutro de informações diversas da música popular brasileira, que é riquíssima. Mas eu filtro todas as informações e a música sai de uma forma muito pessoal. As influências são digeridas e não aparecem com muita clareza. Tem samba, tem baião, tem maracatu e música africana, mas não é nada puro”, enfatiza o músico, que introduziu inclusive um rap no repertório de “Auto-retrato”, além de três músicas com letras - fato inusitado em sua carreira dedicada à música instrumental.

“Eu sempre gostei de cantar, mas eu sempre fiz música instrumental. Pelo fato do trabalho solo me exigir a voz mais do que normalmente eu a usava, o texto acabou aparecendo com naturalidade. Mas não é uma coisa que caracteriza o som como música popular”, acrescenta.

Sobre o fato de tocar como se fossem vários músicos, o instrumentista explica que o som é resultado de uma técnica que ele vem estudando há cerca de três anos. “As pessoas costumam dizer que eu sôo como se fossem vários músicos juntos porque eu toco vários instrumentos simultaneamente. Tem um samba que, além de cantar, eu todo pandeiro, surdo e tamborim. É uma técnica minha que eu desenvolvo há três ou quatro anos”, explica.

Política cultural

Caito elogia a iniciativa do projeto Sesc Instrumental e critica o pouco espaço dado à música instrumental no País. “O Brasil está muito complicado mesmo em termos de cultura. É um problema de política cultural, mas o Sesc é sempre uma grande via de escoamento desse tipo de produção mais diferenciada”, avalia.

“A produção brasileira é muito vasta, mas infelizmente ela está quase toda fora da mídia. As cinco grandes gravadoras do País produzem o que há de menor qualidade hoje e produzem pouco, investem em poucos nomes. Então, mais de 90% do que se faz no Brasil não tem acesso à mídia”, enfatiza o percussionista.

• Serviço

Caito Marcondes hoje, às 21h, no auditório do Sesc. Os ingressos custam R$ 6,00 e R$ 3,00 (matriculados, estudantes e maiores de 60 anos). O endereço é avenida Aureliano Cardia, 6-71. Outras informações pelo telefone (14) 3235-1750.

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O músico

Caito Marcondes ingressou no mundo da música aos oito anos de idade, tocando piano. Mais tarde, veio o interesse pela bateria e pela percussão.

Ele estava cursando o terceiro ano de arquitetura quando foi convidado por Hermeto Pascoal para integrar seu grupo, onde permaneceu por quase um ano.

Em sua trajetória, Caito já se apresentou com nomes como Rita Lee, Chico César, Marlui Miranda, Paulo Moura, Jaques Morelenbaum, John Scofield, Milton Nascimento, Ná Ozzetti e Mônia Salmaso, entre outros. Atuou também como instrumentista, compositor e arranjador em várias frentes como trilhas sonoras de espetáculos de dança e cinema.

Seu primeiro CD solo, “Porta do Templo”, foi gravado em 1995 na Califórnia, Estados Unidos, com o Turtle Island String Quartet e François Lima. Em 2001, lançou “North meets South - Sul Encontra Norte”, um duo de violino e percussão com o violonista Tracy Silverman.

O último álbum, Auto-retrato, foi gravado ao vivo no ano passado em São Paulo, com participação das cantoras Marlui Miranda e Mônica Salmaso.

Paralelamente a seu trabalho solo, Caito é integrante da Orquestra Popular de Câmara como percussionista, compositor e arranjador.

Da Redação

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