Considerado dócil, um cão da raça boxer atacou e matou ontem pela manhã Eliza de Souza Vicente, 78 anos. Ela foi mordida na coxa direita e posteriormente no pescoço, depois de entrar na casa onde moram o filho, netos e um bisneto. No momento do ataque, o cachorro estava solto no quintal da residência, situada na rua Boa Esperança, 10-45, na Vila Seabra.
A casa era continuamente freqüentada pela vítima, que morava a duas quadras de lá. Como fazia de modo habitual, Eliza entrou no imóvel sem avisar. “Ouvi o rosnado do Pitoco e a voz dela”, conta o bisneto José Lucas dos Santos Oliveira, 12 anos, que estava em casa com a mãe no momento da ocorrência. Os gritos de “acode” da vítima e os pedidos de socorro do menino despertaram a atenção dos vizinhos.
Dois deles, que trabalham numa empresa de mototáxi em frente, prestaram auxílio. “O cachorro estava grudado (no pescoço da vítima). Peguei um taco de sinuca e dei quatro pancadas na cabeça dele. Aí soltou (da mulher)”, relata o mototaxista João Rosa da Silva Neto. O animal foi recolhido num quarto da casa por Angélica dos Santos, mãe de Lucas. Ela acionou o resgate, assim como fez a vizinhança. Também telefonou para o marido, Acássio Lucas de Oliveira, neto de Eliza.
“Eu estava indo trabalhar, voltei correndo. Ela (a avó) já estava começando a roxear. Tirei a dentadura dela e fiz respiração boca-a-boca. Aprendi no Centro de Formação de Condutores, mas o ar saia pelo lado (pelas feridas provocadas pela mordida). Eu ia pegar uma caneta para fazer traqueostomia (abertura da traquéia para a passagem de ar), mas o Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência) chegou”, conta Oliveira, que é marceneiro.
Ele recebeu apoio dos vizinhos, que tentaram ajudar a vítima com massagem cardíaca. “Sangrava muito. Colocamos um pano (para estancar o sangue). No começo ela estava normal. Depois ficou ofegante e desfaleceu. Estou abalado. Nunca mais vou esquecer isso. O Samu deu os primeiros socorros aqui mesmo”, acrescenta Silva Neto.
Mas durante o atendimento inicial, a vítima não foi entubada (para oxigenação) porque os canos utilizados no procedimento saíam pelos ferimentos provocados na traquéia (órgão responsável por levar o oxigênio até os pulmões), informa Ivan Segura. Ele é diretor do Instituto Médico Legal (IML), para onde o corpo da vítima foi levado depois de passar pelo Pronto-Socorro Central (PSC).
“Houve tentativa de reanimação. Foi feita a traqueostomia no PS. Mas nesse intervalo, ela ficou sem respiração nenhuma”, explica Segura. A idosa morreu de asfixia mecânica, reitera o médico responsável pela necropsia, João Sérgio Carneiro. Ele também constatou a mordida na perna direita da vítima.
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Reconhecimento
Por maior que seja a intimidade com um cão, ao chegar ao território dele, é importante que a pessoa se identifique, chamando-o pelo nome. A recomendação do veterinário Joel Francisco de Carvalho Amorim é extensiva ao proprietários dos animais. A iniciativa é importante porque durante o reconhecimento os cachorros utilizam principalmente os sentidos da audição e do olfato, já que dispõem de visão precária.
“Se a pessoa entra (calada) e o cheiro está diferente, o cachorro pode atacar. Pode até ser o dono”, conclui o veterinário. No entanto, desconhecidos figuram como vítimas mais freqüentes, como ocorreu em janeiro deste ano, época da última ocorrência grave desta natureza. Na ocasião, uma adolescente de 14 anos sofreu vários ferimentos pelo corpo depois de ser atacada na rua por dois cães da raça rotweiller.
Os animais, pertencentes a um morador do Jardim Gerson França, teriam escapado enquanto ele guardava um caminhão na garagem. Três dias depois, a Polícia Militar matou uma cadela pit bull, que fugiu de uma casa na Vila Nova Esperança e passou a brigar com outro cão.
Na época em que os casos foram registrados, a ineficiência da lei municipal número 4.430 - que proíbe o trânsito de cães ferozes em vias públicas sem focinheira - voltou à pauta de discussões. Aprovada há seis anos, ela ainda não foi regulamentada. Por essa razão, na ocasião, a Polícia Civil passou a lançar mão do Código Penal para enquadrar os donos e responsáveis por cães ferozes que coloquem a população em risco.