Os mitos são sempre criados, destruídos e reconstruídos ao sabor dos simbolismos culturais. Todo mito tem o seu dia de Lula ou de Severino, que sequer tiveram a chance de se consolidarem como os “pobres que deram certoâ€, embora tivessem ido mais longe do que deveriam. Veja o caso dos Estados Unidos, um mito construído com as metáforas de Hollywood e muito dinheiro fruto da dominação econômica. De repente um furacão com nome de mulher deixa exposto um Haiti no país mais rico do mundo. Negros pobres segregados numa cidade submersa e uma comoção silenciosa. O mundo, imóvel, constrange-se com a vergonha a que são submetidos intelectuais, políticos, imprensa e o povo norte-americano, todos identificados com a exposição de um tumor. O documentarista e escritor Michael Moore pergunta a George W. Bush: “Onde estão os helicópteros militares, senhor Presidente? Como eles conseguem chegar mais rápido ao Oriente Médio do que a New Orleans?â€.
Um sobrevivente diz ao repórter da televisão: “Nós nascemos com a cor errada, no lugar erradoâ€. Racismo ou incompetência? Os Estados Unidos não sabem o que fazer com os seus pobres, nem mesmo na emergência de uma tragédia. Desta vez não há heróis como os 300 bombeiros do 11 de setembro em Nova York. Naquele setembro, pelo menos, o sentimento de patriotismo e solidariedade mobilizou o País. Desta vez, observou o “The Washington Postâ€, o horror provocado pelo Katrina foi incapaz de fazer com que uma reação civil compensasse a paralisia do governo. Quem sabe, porque eram pobres atingidos pela fúria da natureza num canto cuja identidade está mais próxima das ilhas do Caribe do que da América anglo-saxônica.
Fala-se agora em investimentos de US$100 bilhões para reconstruir a cidade. Uma ninharia... Quantia igual os Estados Unidos gastam todos os anos na guerra do Iraque. Para o americano, tudo é oportunidade de negócio. Não vão demorar a surgir projetos para a disneyficação de New Orleans. Seu Quarteirão Francês autêntico será transformado numa féerie de luzes com bandas de Mickeys tocando jazz. Business is business...
A verdade é que na Era Bush, ocupada com o Iraque, o Afeganistão e o fantasma de Bin Laden, os índices de pobreza aumentaram. Segundo o The New York Times, os EUA estão num modesto 43.º lugar no mundo em mortalidade infantil: 11,5 crianças de cada 1.000 morrem antes de completar um ano. Pode parecer um índice baixo se comparado ao do Brasil, de 29 por mil. Mas nós estamos longe do mito. Vexatório para a mais poderosa nação do mundo é o confronto dos 2,28 de Singapura, a menor taxa mundial. Ainda informa o mesmo jornal que a taxa de vacinação das crianças contra o sarampo é a 84.º do mundo. Contra a poliomielite, a 89.º.
Na medida em que baixam as águas em New Orleans afloram outros números: 30 milhões de norte-americanos vivem abaixo da linha da pobreza. Para os padrões de países pobres, a linha é confortável: considera-se pobre nos Estados Unidos uma família de quatro pessoas com renda inferior a US$ 19 mil por ano. No Estado de São Paulo a renda per capita média é menor do que US$ 5 mil. Mas o NYT se queixa de que o número de pobres cresceu 1,1 milhão a partir de 2003. Pelo menos 20% dos norte-americanos são analfabetos funcionais, ou seja, não estudaram o suficiente para fazer contas corretamente, escrever e interpretar um pequeno trecho de leitura.
Acho que Michael Moore poderia acrescentar ao seu rol de questionamentos esta pergunta: “Onde você guarda o seu racismo?â€. No Brasil isso já vem sendo feito por organizações não-governamentais encorajadas a tocar na ferida do preconceito. Até há pouco o mito brasileiro era de que vivíamos em uma “democracia racialâ€. Importante ressaltar que 44,1% das pessoas negras no Brasil vivem com renda per capita inferior a US$ 1,00 diário (Ipea); somente 14,1% dos estudantes são pessoas negras (Pnad 2003) e a chance de uma pessoa negra ser assassinada é 86,7% maior do que de uma pessoa branca. É preciso desmitificar. Questionar onde guardamos o nosso racismo pode ser um bom começo. No Brasil ou em qualquer lugar.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC