Um dos mais reacionários teóricos políticos de todo o planeta é Karl Rove. Este senhor (que, no espectro político, situa-se à direita de Genghis Khan) é assessor de George W. Bush. Embora não saiba, Rove tornou-se o inspirador da única decisão econômica do presidente brasileiro que Antonio Palocci não conseguiu impedir: a de expandir o microcrédito, permitindo empréstimos consignados para funcionários públicos, aposentados e pensionistas do INSS. A base teórica do microcrédito é a teoria da ownership society (que podemos traduzir para “sociedade proprietária”). Ela supõe que os cidadãos votam para manter o status quo, quando os interesses financeiros têm considerável peso sobre a vida da comunidade. A condição de propriedade financeira alia interesses de eleitores a políticas econômicas.
Karl Rove, apóstolo da teoria da “sociedade proprietária”, acredita que os eleitores endividados escolhem candidatos que preservem a política econômica, para evitar os dissabores de mudanças nas taxas de juro ou de critérios de garantia de empréstimos. Em outras palavras, o endividamento torna os eleitores mais conservadores. E só os eleitores muito conservadores podem apoiar um governo como o de Lula da Silva... O grande problema é que Lula da Silva não entende bem o que se deve fazer com o crédito. Lula, o centauro do agreste, não percebe que o crédito deve possibilitar a compra de ativos que tornem o empréstimo autoliquidante, garantindo um rendimento futuro que lhe permita ser a fonte de pagamentos da dívida.
Os dados do Banco Central são assustadores. Em janeiro de 2004, os empréstimos para trabalhadores montavam R$ 6,028 bilhões; em abril de 2005, subiram para R$ 16,550 bilhões. No que se refere aos aposentados, foram emprestados (até dia 2 de junho de 2005) R$ 6,8 bilhões. Os aposentados e pensionistas com benefícios de até um salário mínimo respondem por 42,06% das operações de empréstimos.Para Fernando Blumenschein (FGV), as condições para uma crise de inadimplência estão dadas: ele afirma que a disponibilidade de recursos da população das classes C, D e E para as despesas não essenciais é de 9,5% da renda mensal. Como os empréstimos são oferecidos desde que o tomador comprometa até 30% da renda com prestações, é certo que haverá inadimplência.
O governo entrou numa arapuca (levando consigo muita gente humilde e trabalhadora) porque a economia está esfriando e o consumidor precisa cortar o consumo corrente, já que tem que assumir o serviço da dívida. Ou, pior ainda: precisará rolá-la, incorporando os juros e aumentando o principal.
Os economistas lembram que aposentados têm ínfimas chances de acesso a outras fontes de renda caso cheguem a uma situação de insolvência. Da mesma forma que os assalariados, em uma economia em desaquecimento. O que acontecerá com esses pobres devedores? Lula da Silva parece estar forçando o Brasil a mudar de padroeira: ao invés de Nossa Senhora de Aparecida, a Nação terá que rezar por Santa Edwiges. Recomendo que o santuário nacional seja construído em Garanhuns. Até porque o agreste pernambucano, de Garanhuns a João Alfredo, precisa de preces.
O autor, Ney Vilela, é professor e mestre em história