Tribuna do Leitor

A ÚLTIMA DO SERJÃO...


| Tempo de leitura: 2 min

Ele foi professor de matemática do lendário Instituto de Educação “Ernesto Monte”, lá por meados do século 20. Eu comecei como professor do Senac. Cheguei ao “Ernesto Monte”, no início dos anos 60, a convite do meu saudoso mestre e amigo José Gori. O Serjão já estava lá. O Instituto era uma espécie de academia, povoada por sábios, que garantiram uma formação de excelência a gerações inteiras em Bauru.

No verdor dos seus vinte e tantos anos, autodidata, o Serjão falava com orgulho dos seus colegas gabaritados e famosos: Peixoto, Pacheco, Gori, Anibal, Isaac, Dimas, Parolo, Petronio, Ernani, Prosperina, Cleide Canova, Gerson Rodrigues, José Benedito, Neusa Monte, Nair Matos, Scalzo, Gebardo, Laureano, Toledo, Alice Pedro, Tutinha, Jacy Villaça, Retz, Honor Figueira (o Chê), Sylvia, Célia, Clélia, Isméria, Maria José, Aquino e Ruth, Alvarenga, Nivaldo Nogueira, Sonia, Médici...

Era um time que qualificou multidões de alunos, abrindo-lhes as portas da universidade, sem a intermediação dos cursinhos. Quando pus os pés na escola, lá já estavam, saídos, como eu, da antiga Fafil, hoje USC: Muricy, Maria Izabel Hilário, Romão, Campezzi, Froes, Gino, Juliano, Dayse Massad, Fúlvio, Adelaide...

O Serjão tinha vindo de Botucatu, a cidade dos bons ares, segundo a etimologia... E das boas escolas, ele acrescentava. Também, de impolutos professores, protagonistas de saborosas histórias que o Serjão gostava de contar. De preferência, focando as excentricidades.

Um excêntrico! Isso o Serjão também era, além de piadista, com repertório inesgotável. As piadas ficavam para a sala dos professores e os botecos. Na sala de aula, falava o mestre, repartindo generosamente com os alunos o saber construído e amadurecido fora da academia. Aqui, o Serjão esbanjava excentricidade.

Informal no trato com os alunos, rabiscava anarquicamente a lousa, alinhavando números com sinais, traços e outros signos da ciência que lhe era familiar. Saía do quadro, invadia as paredes, apagava com a manga do avental... Tudo isso, articulado com baforadas de fumaça nascidas do consumo ininterrupto de cigarros sem filtro... De quebra, uma inversão insólita. Não raro, o Serjão era flagrado levando o giz à boca... Mas, justiça se lhe faça: nunca foi visto tentando rabiscar a lousa com o cigarro.

Assim era o Serjão, ou melhor, o Sérgio Carneiro. Somente outro dia fiquei sabendo que ele tinha ido embora. Excêntrico, partiu, rumo à eternidade, sem avisar os amigos. Sequer uma notinha no jornal. Foi a última do Serjão. (João Francisco Tidei Lima, professor aposentado da Unesp e professor da USC)

Comentários

Comentários