Ser

Cientista musical

Cristiane Goto
| Tempo de leitura: 12 min

Em se tratando de boa música brasileira, o nome de Maurício Pereira, 46 anos, desponta como uma das principais personalidades. Isto porque, além de compositor, o cantor, saxofonista, violonista, ator, jornalista e produtor paulistano é conhecido por suas letras poéticas e arranjos criativos presentes desde o começo de sua trajetória, na década de 80.

Nessa época, foi convidado para participar do programa “Fanzine”, na TV Cultura, e, a partir daí, descobriu o verdadeiro gosto pela música.

Cinco anos mais tarde, juntou-se a André Abujamra para formar o Mulheres Negras. Com a dupla, marcada pela originalidade, lançou dois discos e realizou mais de 1.000 shows no País, a maior parte deles no Interior de São Paulo.

Já nos anos 90, Pereira iniciou carreira solo e passou a garimpar influências e novas formas de aprendizagem em diferentes trabalhos musicais. Gravou e assumiu a produção de dois CDs independentes, “Na Tradição” e “Mergulhar na Surpresa”. Em 1996, entrou para o Guiness Book como autor do primeiro show via Internet transmitido ao vivo do Brasil.

Ator de comerciais e algumas campanhas institucionais, foi convidado este ano para participar do elenco da próxima novela global, “Bang Bang”, mas teve de recusar o convite por conta de problemas de contrato.

O ecletismo em sua carreira não pára por aí. Pai de três filhos, Pereira produziu, recentemente, um DVD sobre cenas musicais em diversas capitais brasileiras para o projeto Itaú Cultural, mostrando outra faceta de seu trabalho, que também inclui a realização de palestras e workshops culturais.

“Em 2003, desenvolvi o projeto ‘República’, no Serviço Social do Comércio (Sesc) de Bauru”, conta ele, em entrevista concedida ao Jornal da Cidade no último dia 14, horas antes de um show realizado no Sesc. Na apresentação, Pereira juntou-se ao grupo Turbilhão de Ritmos – cuja maioria dos integrantes tocava com ele na época do “Fanzine” - para mostrar seu novo CD, “Canções que um Dia Você Assobiou – vol. 1”.

Compartilhe mais sobre o perfil de Pereira na conversa a seguir.

Jornal da Cidade - Quando você começou efetivamente a tocar?

Maurício Pereira - Me formei como jornalista aos 20 anos e até os 25 anos eu trabalhei em diversos lugares. Numa das várias vezes em que eu fui despedido, encontrei o André Abujamra e era uma época em que havia espaço na cena musical para fazer coisas mais experimentais e, sem querer, nós viramos profissionais. Em 1985, rolou o Mulheres Negras, e depois voltei a estudar música porque me faltava conhecimento técnico. Mas eu já tinha 25 anos, então meu contato com a música antes disso era muito mais de ouvinte do que de ter banda de garagem, por exemplo. Fui ser músico por acaso, depois de ver muitos shows, pensar e anotar coisas que ouvia no meus cadernos.

JC - Foi uma escolha tranqüila? Teve apoio da família?

Pereira - Sim, acho que meus pais viram eu ser despedido tantas vezes que aceitaram meu novo emprego (risos). Para nenhum pai é fácil aprovar que o filho vai ser músico, até para mim; se algum filho meu escolher essa profissão, vou ficar bem preocupado porque sei como é difícil. Mas nos anos 80 era mais fácil trabalhar com música do que hoje porque o mercado era diferente.

JC - Quais são as dificuldades de ser um músico independente?

Pereira - A primeira é porque para cinco minutos que o artista fica no palco é preciso “ralar” durante seis meses. Ele tem muita liberdade, conhece e toca com muitos músicos bons, mas sobreviver da música independente é muito difícil. E isso faz com que a gente faça diversas coisas ao mesmo tempo. É bom porque se aprende, mas é ruim porque é angustiante: cada começo de mês é uma nova aventura. Então a gente aprende a se virar.

JC - Como é seu trabalho de composição?

Pereira - Compor e criar traz muita angústia.

JC - Por quê?

Pereira - Eu tenho um ciclo de trabalho muito lento. Compus na época do Mulheres Negras, em 1984 e 1985, e fiz bastante coisa. Em 1989 também. Em 1994 tive uma safra e depois gravei um disco com músicas de outros artistas e começou dar uma neura: será que não aparece mais nada interessante? De 2002 para cá fiz diversas músicas de novo e vou gravá-las em um CD ano que vem e aí sei que só vou ter assunto importante daqui a uns quatro anos. Então é um ciclo lento para mundo rápido. Isso dá um pouco de incerteza e, cada vez que o artista lança um trabalho, surgem algumas questões: será que o público e a crítica vão gostar, será que vende?

JC - O que interfere na escolha das letras e das melodias?

Pereira - Eu penso na vida. Se fosse caipira, sentava na beira do rio mais próximo e ficava horas pensando porque o céu é azul ou porque as pessoas choram. Eu sou curioso da raça humana e do coletivo, então uma coisa que sempre fiz e faço muito é andar a pé. Já peguei trabalhos em Brasília e fui de carro até lá parando em cidades, entrando em circos, rádios, centros culturais, já tomei banhos de cachoeira. Eu ando em São Paulo, olho, sempre acho que vou descobrir alguma coisa.

JC - Como um cientista no meio musical?

Pereira - Como um cientista ou como é chamado no Interior, um matuto, o cara que fica olhando e observando. Andar a pé é minha principal fonte de inspiração, eu sou meio tímido. Chego, escuto algo, eventualmente converso. Andar e observar é a principal fonte para mim.

JC - É mais difícil compor ou encarar a platéia? Aliás, você tem uma música que trata disso, na qual se questiona se as pessoas estão prestando atenção na letra.

Pereira - Encarar a platéia é a coisa mais fácil do mundo porque num show eu estou ali, tenho o personagem, o assunto, a luz e a turbina, que é a banda. Sou um sujeito angustiado e o palco para mim é um lugar tranqüilo. O telefone não toca e acho que é o lugar onde meu coração tem o batimento mais baixo.

JC - No Mulheres Negras você e André Abujamra gravaram para a Warner e chegaram a se apresentar em programas de TV. Como foi essa experiência com o lado da mídia de massa?

Pereira - O Mulheres tinha uma boa entrada nesse meio. Nos anos 80 era mais simples tocar na Globo, Manchete ou Bandeirantes. No Mulheres, apesar de termos um trabalho instrumental, sempre achávamos que tínhamos que fazer música comercial. Buscávamos nos apresentar no Chacrinha, lançar um disco em uma gravadora grande ou tocar numa FM de ponta.

JC - Como foi depois que o Mulheres Negras acabou?

Pereira – Isso foi em 1991. Eu, queria dar certo no mercado não porque quisesse ficar rico com música, mas porque fazer música popular implica em tocar para muitas pessoas, nas rádios, nos programas, aparecer nas revistas e vender em lojas grandes. Para mim isso é uma coisa que dá honra. Só que o mercado mudou muito nos anos 90. As gravadoras encolheram, o mercado ficou mais arisco para trabalhos instrumentais e eu nunca tinha produzido independente. Antes tinha contrato com a Warner, então tive de entender o mercado e de que não havia mais lugar no comércio para meu trabalho, que era uma coisa mais específica. Por isso, fui guerrilheiro nos anos 90: produzi dois discos em dez anos, o “Na Tradição” e o “Mergulhar na Surpresa”. Comercializei, pensei na capa, na mídia, aprendi muita coisa.

JC - Você é o autor do primeiro show via Internet ao vivo do Brasil, transmitido em 1996. Como foi esse trabalho?

Pereira - Em 1998 e 1999 todas as revistas da Internet vinham me entrevistar e eu dizia que não estava buscando tecnologia, mas liberdade de expressão. Nos anos 90 toquei em Internet e fui um dos primeiros a ter site e a ter acesso. O CD “Na Tradição” demorou seis meses a mais para sair porque eu esperei sair a web no Brasil. Mas no fim dos anos 90 resolvi abrir o leque profissional, produzindo trabalhos de outros artistas e realizando outras coisas.

JC - Você participou dos testes para a seleção de “Bang Bang”. Pensa em trabalhar como ator de novelas?

Pereira - Nunca tinha pensado nisso, mas com essa novela eu fiquei aguçado porque é texto do Mário Prata, tem vários músicos e será superdivertida. Cheguei a receber capítulos e vi que a história tem a ver com o Brasil, tem bom-humor e vai brincar muito. Fiz o texto com Paulo Miklos, meu papel seria o dono do saloom, e deu para sentir que seria legal. Mas é um esquema industrial e não é fácil enfrentar o cotidiano de uma novela. E estou preparando discos e fazendo uma série de coisas. Quem sabe em um outra oportunidade.

JC - Você citou o humor do folhetim. Sua carreira sempre foi pautada por essa característica. Por quê?

Pereira - No pé da letra, minhas músicas têm um certo bom humor, mas às vezes soam até melancólicas porque, olhando para a vida, vejo que qualquer obra de arte tem meia dúzia de assunto: amor, morte, vida, justiça, desejos; e o artista é meio antena. As pessoas estão com angústias, mas acho que o músico pode ter leveza para falar da dureza e do vazio. E mais do que o humor, acho que o bom-humor é importante. Na minha formação como artista, já no Mulheres Negras, conversávamos sempre com o público nos shows. E o público é divertido. Um dos momentos que faz com que uma pessoa vá num show é a festa e eu sou daqueles que acham que cultura e entretenimento são irmãos; não se separa uma coisa da outra. No meu trabalho não separo poesia, emoção ou risada, está tudo junto e acho que isso é natural para uma pessoa de São Paulo, que é uma cidade onde tudo acontece ao mesmo tempo e rápido.

JC - Como avalia o cenário musical brasileiro?

Pereira - Artisticamente, como sempre, a música brasileira é muito rica. Um dia assisti uma entrevista do Latino em que ele explicava como fez a canção “Festa no Apê”, que é uma coisa maravilhosa. E ao mesmo tempo existe um cenário de rock independente forte em São Paulo, DJs que foram super-importantes para a música no começo do século 21; teve o hip hop, o maracatu e o mangue-beat; a cada dia aparece uma coisa nova e vigorosa. Há pessoas que dizem que a música brasileira está em crise e tudo se repete, mas eu não acho isso. O pagode foi importante porque colocou o samba de volta na cultura brasileira, o sertanejo foi importante porque transformou a música caipira numa música pop com pegadas de rock’n’roll. Eu vejo essa riqueza e acho que artisticamente a música brasileira é maravilhosa. Mas economicamente o mercado brasileiro está quase morto. Li duas notícias que apontavam que o Brasil é o quarto em concentração de renda e tem 75% de analfabetos funcionais. Num país pobre, que não tem informação ou educação pública, quem vai consumir música? Só é possível consumir aquela meia dúzia de canções que estão na TV aberta e o País tem muito mais música, mas não tem dinheiro para comprar. É uma arte muito rica num País de mercado concentrado. E além de ser um mercado pequeno, as multinacionais do disco escangalham esse mercado com jabás.

JC - Uma coisa sobre a qual você é declaradamente contra.

Pereira - Não tem como ser a favor. O lance é: o que é que o Buani pagou para o Severino? É jabá. Isso tem em toda profissão. É que no caso da música brasileira, em especial, o jabá tira o emprego de muita gente. Mas ele só existe porque o mercado é pequeno. É como em Nova Orleans: quando acabou a luz elétrica, entrou a lei do cão; quem tem um revólver vale mais do que quem tem moral. Então o que acontece no mercado fonográfico brasileiro é mais ou menos como em Nova Orleans depois do furacão: o revólver está na mão da multinacional, ela tem o poder. Não é a poesia que comanda.

JC - Você disse em entrevista recente que o pop é algo sagrado. Por quê?

Pereira - Porque na música pop é importante atingir o maior número de pessoas possível com muita simplicidade. Num esquema de negócio que envolve milhões de CDs, é preciso ter espírito, divindade, transcendência e invenção. É preciso ter um elemento do coletivo para se cantar aqui e as pessoas chorarem lá. Isso é sagrado. Num mundo rápido e materialista, de repente uma canção simples que a pessoa ouve no rádio a transporta para outro lugar, não é religião, mas uma experiência espiritual.

JC - Por isso a escolha por canções que fazem parte do inconsciente coletivo popular em seu novo CD?

Pereira - Sim. E o disco é reverente e irreverente porque são canções que tocaram tanto, mesmo sem as pessoas terem disco. Fazem parte do coletivo, são músicas que as pessoas cantam no chuveiro, descalço, brincam, fazem paródias, são tão simples que se tornam sagradas. Isso é o serviço público que um artista presta e continua prestando, com ou sem jabá, graças a Deus.

JC - Você está apresentando no show o CD “Canções que um Dia Você já Assobiou – vol. um”. Haverão outras séries?

Pereira - Bem que eu gostaria, mas quase fui à falência com o volume um. Na estrada nós conseguimos fazer shows diferentes com o disco, entre eles um só com Adoniran Barbosa com uma roupagem mais pop e outro só de Erasmo Carlos. Poderiam virar discos, mas é o tal negócio: às vezes o mercado não absorve e para produzir um disco é preciso ter paciência porque para isso vou passar quase dois anos devendo, minha mulher pode me largar e meus meninos podem ficar loucos comigo (risos). Então, hoje penso muito antes de fazer um disco. Se puder, faço, mas às vezes é mais importante criar caminhos diferentes.

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