Em nome do "bem", a história do mundo registra milhares de guerras, assim como em nome da religião (ainda hoje acontecem guerras desses tipos). Atualmente, o problema é maior ainda, porque o mundo está dominado pelo neoliberalismo, doutrina criada nos laboratórios das multinacionais sediadas, principalmente, nos EUA e que está conseguindo transformar todos nós em meros consumidores, além de excluir social e economicamente muita gente que - por qualquer motivo, isso não importa - não assume esse papel, ocasionando então problemas sociais graves, como criminalidade, falta de caráter e ausência de solidariedade.
Na edição desta semana a revista Veja traz um artigo do André Petry, que fala da urgência de quebrar patentes de remédios contra a aids e a demora do Governo Federal em tomar essa urgentíssima atitude. Ocorre que, na lógica neoliberal, não é correto fazer isso: “Puxa, os laboratórios investiram tanto em pesquisas, agora é justo que lucrem com a venda de remédios....”, argumentam os incautos ou mal-intencionados, condicionados que estão pela visão neoliberal, que privilegia o interesse financeiro ao social.
Eu pergunto indignado: “É certo, então, priorizar o dinheiro e deixar que os aidéticos pobres morram porque não têm dinheiro para ‘compensar’ os investimentos das multinacionais de medicamentos? Como alguém, conscientemente, pode concordar com isso?”. Minha mãe sempre contou a história das varinhas para explicar aos cinco filhos porque eles deveriam ser unidos: “Uma a uma, é fácil quebrar cada varinha, mas quebrar as cinco juntas é muito difícil”, dizia ela. Os humanos descobriram que em grupo é mais fácil se defender dos outros animais e das intempéries. Ou seja, foi a solidariedade (um defende o outro e todos se defendem) que nos modelou enquanto espécie e permitiu nossa evolução.
Mas o modelo econômico neoliberal está colocando tudo isso em risco, transformando-nos em selvagens que lutam, uns contra os outros, para atingir o nirvana, o dinheiro. Os valores, a ética e os padrões morais foram relegados a um segundo plano. Fico raciocinando: o que mais pode aspirar um jogador de futebol de qualquer clube do Brasil ou do mundo, senão atingir o sucesso e conseguir ser vendido para um clube europeu, de preferência o Real Madri? O que pode esperar um empresário pequeno, médio ou grande, de qualquer país, senão conseguir um espaço tão bom, que justifique a sua compra pelas multinacionais do setor?
Tudo extremamente concentrador, como num funil, onde só existe uma única saída. Ou seja, todo mundo está condenado a trabalhar para aumentar os lucros cada vez maiores de um pequeno grupo de investidores de Wall Street ou de uma ou outra capital européia. Danem-se princípios como solidariedade e responsabilidade. Valores como ética e moral. E até padrões de sobrevivência, como meio ambiente, pois toda a produção está baseada na exploração física do planeta. Logo, logo, também serão dispensados conceitos como lar, família e amizade. Isso tudo fica em segundo plano, o que importa é o ganho, o lucro, ainda que obtido às custas de um número cada vez maior de excluídos, que se tornam párias sociais, insumos para a criminalidade, para a irresponsabilidade social e para o desmando.
Não podemos ficar esperando passivamente que isso aconteça! Não podemos aceitar que a nossa inteligência, as nossas experiências de vida, as conquistas da nossa ciência, não tenham valido para nada. Temos que mudar isso e vamos mudar essa situação! Porque temos filhos e netos e a obrigação de deixar um mundo "vivível" para eles. Se a vida, atualmente, já está esse horror de competição desenfreada, como será para eles no futuro se deixarmos "o barco correr livremente"? Se não fizermos nada, nossos filhos e netos serão animais selvagens que terão que lutar pela sobrevivência sem restrições nem normas, à base da força bruta e do desvario. Que assim não seja!
O autor, Hélio Rubens de Arruda Miranda, é jornalista