Tribuna do Leitor

Revitalizando a mentalidade


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O Centro de Bauru - especialmente o Centro histórico - passou por um excelente trabalho de revitalização, promovido pela prefeitura municipal, assessorado por técnicos e bem aceito pelos comerciantes. Com isso, fachadas foram refeitas, construções originais do início do século passado foram restauradas e a pintura foi reformulada. Entretanto, conquanto se tenha havido uma revitalização técnica, infelizmente não houve, e parece não ser possível, haver uma revitalização da mentalidade juvenil.

Já são inúmeros os imóveis históricos que foram novamente pichados, desmerecendo o trabalho que se teve para deixá-lo como um dia fora, numa época em que os pais tinham autoridade sobre os filhos e, estes, temiam desrespeitar as regras, fossem elas sociais, morais ou educacionais.

Que vocação é esta a nossa para sermos tão coniventes com a ilicitude? Que maldição paira sobre o brasileiro para torná-lo tão indolente aos problemas sociais? Estatuto do Desarmamento, Estatuto do Idoso, Estatuto do Adolescente, enfim, temos uma vocação para fingir que estamos resolvendo problemas por meio de “estatutos” quando, na verdade, pouco ou nada se altera na realidade urbana. É puro fingimento. Tome-se outro exemplo: a Constituição Federal brasileira é uma das mais articuladas do planeta.

São quase 250 artigos e meia centena de emendas, que trazem (no imaginário mais débil) a solução para todos os problemas possíveis que possam existir no contexto nacional. Mas, apesar disso, temos todos os piores desempenhos sociais e humanos, perdendo posições, vergonhosamente, até para republiquetas subdesenvolvidas na África. E o intrigante é que a constituição americana consegue resolver tudo com menos de 10 - sim, acredite, menos de 10 - artigos e poucas emendas, sem se falar que a deles remonta a mais de dois séculos incólume, enquanto que nossa é está na “enésima” tentativa em pouco mais de cem anos de República.

Temos uma vocação temerária para a punição. Achamos que não se pode punir, senão se traumatiza; acreditamos que não se pode reprovar um aluno, senão se lhe compromete o desenvolvimento; achamos que não se pode repreender com severidade, senão se atemoriza e se cria um futuro ser humano ausente de si. Apenas não percebemos que nossos jovens, dia após dia, estão transformando a sociedade numa “casa da mãe Joana”, para seus caprichosos fins. Cada um deles se sente no direito de fazer, reclamar e ousar, destruir e danificar, infringir ou violar, sem se sentir na obrigação de responder pelos atos.

O vandalismo que assola qualquer cidade brasileira está assustadoramente crescente graças à leniência de nossas leis. Os estudantes estão se tornando mais displicentes graças ao apoio que os “educadores” têm dado aos seus inadequados comportamentos. Os marginais com menos de 18 anos têm se tornado mais e mais violentos graças à irresolução de nossas leis penais. E, enquanto esse caos toma conta da juventude, projetos de revitalização, como o que houve em Bauru, perdem espaço para o descaso que nós mesmos assumimos, tacitamente, com nossas atitudes.

Ivan Garcia Goffi - OAB/SP 165.173

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