As pilhas de caixas de leite longa vida com cartazes de preços apontando promoções com valor abaixo de R$ 1,00 têm sido as grandes vedetes das listas de compras de muitos consumidores neste mês. De acordo com empresas supermercadistas consultadas pela reportagem, o principal motivo para a redução de preços “fora de hora” do leite foi a queda das exportações do produto - em função do dólar fraco -, o que elevou os estoques no mercado interno. Para estimular o consumo, a saída foi derrubar os preços no varejo.
Por outro lado, o mercado não prevê redução no valor de venda do pãozinho francês em Bauru, onde a unidade de 50 gramas custa em média de R$ 0,15 a R$ 0,22. A previsão é do Sindicato da Indústria de Panificação e Confeitaria de Bauru e Região.
Na opinião de gerentes de compras de alguns supermercados da cidade, o período de liquidações do leite não deve se estender por muito tempo, pois a situação é atípica e tende a se estabilizar nos próximos meses. O gerente de uma das redes consultadas, Aparecido Martins de Oliveira ressalta que, nesta época do ano, geralmente há falta de leite para abastecer o mercado interno.
“Neste ano está acontecendo o contrário, com leite sobrando. Acho que esses preços ainda vão ficar por mais um mês”, projeta. Ele compra em média 10 mil caixas de leite longa vida a cada mês. Ontem, as duas lojas da rede, uma no Parque São Geraldo e outra no Jardim Araruna, estavam vendendo leite de caixinha a R$ 0,89 a unidade.
Produção em excesso
O gerente de perecíveis de um hipermercado de Bauru, Pedro Sérgio Baptista diz que a grande produção de leite e a baixa exportação do produto em pó, com o câmbio pouco atraente, faz deste ano atípico no segmento. Ele argumenta que de junho até meados de setembro é período de entressafra do leite, com o produto e seus derivados custando mais.
“A oferta foi maior do que a procura. O Brasil não exportou (nas quantidades esperadas para o período) o leite seco (em pó) em função do dólar baixo, em torno de US$ 2,30 ou menos, o que não é atrativo ao produtor”, ressalta. Baptista observa que, normalmente, nessa época do ano o preço do leite longa vida de marcas menos conhecidas estaria na média de R$ 1,20 a R$ 1,30 a caixinha. Já o produto de marcas consagradas estaria custando cerca de R$ 1,50.
O gerente acrescenta que, no momento, as lojas da rede em que trabalha estão comercializando leite de marcas consagradas a R$ 1,12 a unidade. Contudo, neste mês os fardos de leite de uma marca famosa foram vendidos durante vários dias com valor bem abaixo de R$ 1,00 por unidade.
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Produtores reclamam
Produtores de leite consultados pela reportagem alegam que vivem um momento difícil com a queda do valor do litro comercializado junto aos laticínios. Eles dizem que ainda não conseguiram uma “explicação sensata” para o baixo valor porque, como o período é de seca, os preços para o produtor deveriam estar em alta.
O pecuarista Abelardo de Paula Brasil Neto revela que atualmente, ao contrário da decisão tomada por ele há três anos, não investiria em gado leiteiro. Ele ressalta que o valor de R$ 0,45 a R$ 0,48 por litro de leite entregue no laticínio inviabiliza sua produção.
“Tem muito produtor amigo meu que está parando por causa do valor pago. Não tem sentido você tirar leite hoje. Mas como a gente está no meio do rio, tem que nadar”, protesta. Brasil Neto avalia que há pressão no mercado para baixar o preço para o produtor.
O produtor de leite Claudemir Fernandes mal iniciou no ramo e já resolveu diversificar para sobreviver à grande oferta do produto no mercado. Mesmo produzindo em pequena quantidade, Fernandes decidiu apostar na industrialização de derivados de leite para fugir das oscilações de mercado. O produtor conta que tomou a decisão após a queda dos preços do litro de R$ 0,50 para R$ 0,45 na venda para os laticínios.
“A informação que a gente tem é de que (o preço) caiu devido à grande oferta. Estava todo mundo animado porque o preço seria melhor, mas justamente na época da seca, despencou. Mas os insumos todos subiram”, reclama.
Fernandes entende que, para compensar os investimentos visando o aumento da produção, o valor venal precisaria estar pelo menos em R$ 0,60 o litro.