A Folha de S. Paulo, do último dia 21/9, página A10, publicou uma carta da filósofa Marilena Chauí, endereçada aos seus alunos, dando satisfação sobre seu comportamento diante do escândalo do “mensalão”. Segundo Chauí, o “silêncio” que a ela se atribui é uma “construção” dos meios de comunicação, aos quais se mostra hostil.
Lendo a carta da professora da USP, fiquei em dúvida a respeito de determinadas colocações. É temerário, porém, criticar tão eminente filósofa, já que nossa cultura e inteligência ficam aquém de uma personalidade tão destacada da intelectualidade brasileira.
É evidente não termos como analisar todos os aspectos da carta. Ficaremos, no entanto, em alguns pontos que chamaram nossa atenção. Nas considerações gerais, Chauí assegura que, se a mídia afirmava, no segundo turno das eleições, que Lula não iria poder governar por causa dos radicais do PT - “pessoas como Heloisa Helena, Babá e Luciana Genro” -, por que hoje essas mesmas pessoas foram transformadas “em portadores da racionalidade e da ética”? Segundo nosso entendimento, a mídia, ao mencionar os radicais do PT, falava de modo geral, incluindo todos os radicais como Zé Dirceu, Delúbio e outros tantos que acabaram, sim, metendo os pés pelas mãos. E quanto aos três radicais supracitados, eles surpreenderam porque, em não compactuando com a conduta do partido, acabaram sendo coerentes consigo mesmos, mostrando a possibilidade de alguns radicais estarem sujeitos, vez ou outra, a um ataque de clarividência.
Chauí diz que uma parte da mídia manifestava preconceito de classe, ao afirmar que Lula, “não tendo curso universitário nem sabendo falar várias línguas, não tinha competência para governar”. Como isso não deu resultado, passou-se a falar em “populismo presidencial”, posteriormente, em “crise do PT”, etc. Ora, questionamos, é competente quem não sabe o que se passa literalmente sob suas próprias barbas? Acaso, também, pode-se negar hoje uma crise no PT? Toda crise, por definição, é penosa, difícil e dramática. "Na crise, o homem deverá optar, isto é, recusar certas propostas, que lhe aparecerão como meras tentações, para, ao contrário, aceitar outras possibilidades”. Pensemos nessas palavras de Pierre Furter e, se o momento que o PT atravessa não é de crise, então, precisamos urgentemente revisar conceitos.
Para a filósofa, “estamos diante de um campo público de direitos regido por campos de interesse privado. E estes sempre ganham a parada.” E diz que, apesar das limitações dos meios de comunicação, ela fez uso deles, porém, se perguntarem a razão por não ter discutido a difícil conjuntura brasileira, isso se deve a quatro motivos. O primeiro teria sido o estado de saúde de sua mãe, que lhe tirou condições e desejo de se manifestar publicamente. Isso nos faz lembrar aquele professor de filosofia, que nos falava em “ignoratio elenchi” (ignorância da questão), que consiste em provar uma coisa diferente daquela da qual se trata.
Assim faz quem, para salvar-se, estende-se em considerações sentimentais. Bem, como isso não é preponderante, passemos ao segundo motivo: Chauí atribui seu silêncio sobre a atual conjuntura à sua desinformação a respeito da situação. Ora, como intelectual engajada, ela necessariamente teria de ir ao encontro das idéias de seu tempo, estar a par “das exigências do tempo presente”, como assevera Denis Benoît, em seu livro Literatura e Engajamento. Sobre o terceiro motivo que leva a professora a calar-se, ela apenas assegura que não vai repetir, “no varejo”, o que já publicou alhures a respeito da necessidade de uma reforma política.
Portanto, quem estiver interessado no tema deverá procurar por suas publicações pretéritas. “Resta o quarto motivo”, escreve. E alude a um ciclo de conferências, intitulado “O Silêncio dos Intelectuais”, que deveria ser encarado de forma mais ampla e a mídia entendeu como o silêncio dos intelectuais petistas. E acusa tais meios de comunicação como uma força, não um poder, a ordenar-lhe: “Somos onipotentes e fazemos o silêncio falar. Portanto, fale de uma vez!” Para defender-se, Chauí prefere dar a palavra a Blanchot e La Boétie, que não vamos resumir aqui porque não vem ao caso. E sintetiza: “Não falo”, assim mesmo, com letras maiúsculas.
Nossa ousadia em comentar uma carta tão ilustre, por certo, será palavra sem brilho proferida na vastidão do deserto. Acrescentará ou subtrairá nada às excelsas qualidades da missivista. Não entendemos, contudo, o porquê desse tiro de rifle na mídia, já que a maioria dos petistas sempre lançou mão de meios autoritários para impor seus pontos de vista, para forçar mudanças na opinião pública. O PT, acaso, não patrulhou, no passado, a atriz Marília Pêra, por ter declarado que iria votar em Collor? Deixou em paz Regina Duarte pelo fato de declarar que tinha medo do futuro, caso Lula vencesse as eleições? Dois pesos, duas medidas?
Somos ou não somos uma democracia, onde todos os cidadãos têm o direito de falar ou calar, conforme suas conveniências? Que se ignore a mídia, se ela é recorrente. Aliás, em matéria de insistência, o PT sempre foi campeão: quando elegia alguém para crucificar, não desistia facilmente!
Se a exponencial filósofa não quer falar, não fale, mas, nem por isso precisa fazer um tratado sobre o silêncio. Falando ou calando, contudo, não escapará às avaliações, uma vez que há linguagem até no silêncio. Sartre dizia: “Calar-se não é estar mudo, é recusar-se a falar, portanto, falar ainda”. Se Chauí quer silenciar, silencie. Mesmo calando, entretanto, deverá admitir nosso direito de ver um recado em seu silêncio. Quem sabe aquele recado: falar é prata, calar é ouro! Ou ainda: quem cala, consente! Falando, ou não, de qualquer forma, estar-se-ia revelando. É o ônus de quem, durante muito tempo, expôs suas idéias ao público, de forma contumaz!
Maria da Glória De Rosa