Turismo

Ouro Preto, a jóia da coroa

Por Zarcillo Barbosa | Especial para o JC Turismo
| Tempo de leitura: 4 min

O ônibus do receptivo turístico, em Belo Horizonte, começa cedinho a embarcar os turistas nos seus hotéis, para levá-los a Ouro Preto. Viagem de pouco mais de uma hora (108 quilômetros), cruzando o chamado Triângulo Ferrífero. São montanhas com o mais alto teor de ferro do mundo. A concentração chega a 60% de cada tonelada de minério extraído das entranhas da terra. Daí o nome “Ouro Preto”, por causa da mistura do ouro com o ferro.

A antiga Vila Rica foi capital de Minas e uma das primeiras cidades a receber o título de Patrimônio Cultural da Humanidade concedido pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (Unesco). Está inclusa em qualquer roteiro turístico como exemplo de arquitetura colonial e barroca do século 17.

Caminhar pelas suas ruas calçadas com pedras pelos escravos é uma volta ao tempo. A pavimentação chama-se “pé-de-moleque”, porque foi executada por garotos pretos escravos. Recomenda-se um tênis folgado no pé e algum agasalho para se proteger da brisa fresca. O passeio a pé é essencial para descobrir a geometria das fachadas e os recantos charmosos a partir da Praça Tiradentes, centro de tudo.

A partir daí é um sobe-e-desce de ladeiras que cansam até o mais bem preparado freqüentador de academia de musculação. Deixe as compras para o final, principalmente as panelas de pedra-sabão. Pesam!

O primeiro local a ser visitado é a Matriz de Nossa Senhora do Pilar, erguida entre 1711 e 1723. A cidade estava no auge da sua riqueza e, por isso, há um abuso de altares folheados a ouro, representativo do barroco mineiro. Especialistas em artes sacras estimam que 434 quilos de ouro tenham sido aplicados em seus seis altares e muitos adornos.

Tanta riqueza atraiu a cobiça de muita gente e o desaparecimento de imagens tornou-se inevitável. Infelizmente isso ainda ocorre. O caso mais famoso é o da imagem de Nossa Senhora das Mercês, do século 17. Atualmente em exibição no modesto museu no subsolo da Matriz, ela foi encontrada na casa de um “colecionador” paulistano. Essa imagem, assim como grande parte da igreja, é obra de Antonio Francisco Lisboa, o Aleijadinho.

Na Praça Tiradentes está o monumento em homenagem ao alferes Joaquim José da Silva Xavier, o único a ser executado na Inconfidência Mineira. “Por ser o mais pobre”, dizem os mineiros. O corpo do mártir enforcado (1789) foi esquartejado, salgado e distribuído pelas cidades vizinhas. A cabeça ficou na ponta de um mastro onde hoje está o monumento. Foi o castigo de D. Maria I, a Louca, rainha de Portugal, para dissuadir qualquer movimento de desobediência à Coroa.

Os demais inconfidentes foram degradados para a África, com exceção de Cláudio Manoel da Costa, que se suicidou na prisão. Em frente ao monumento está o antigo prédio da cadeia e da Câmara Municipal e onde hoje está instalado o Museu da Inconfidência. Reúne cerca de 1.000 peças e 40 mil documentos. Mas não espere muito: tem-se a impressão de estar num antiquário. O melhor é o próprio prédio, que vem passando por restaurações.

Outro ponto importante é o Panteão dos Inconfidentes, para onde foram levados os restos mortais dos articuladores do levante.

É impossível ver tantas igrejas em poucas horas. O poeta chileno e Prêmio Nobel de Literatura Pablo Neruda disse uma vez que “Ouro Preto tem uma basílica em cada um dos seus dez montes, que se elevam como dedos das mãos”. Se tiver que selecionar, fique com as Igrejas de Nossa Senhora do Carmo e a de São Francisco de Assis.

Em frente desta, no Largo do Coimbra, funciona todos os dias uma feira de artesanato com trabalhos de artesanato em pedra-sabão, latão e taquara. Também há em abundância pedras preciosas. Peça o certificado de autenticidade. Há muita gente em Ouro Preto que prefere “explorar o turista” em vez de “explorar o turismo”.

Quando der fome, escolha um dos restaurantes de comida mineira da Praça Tiradentes, no estilo self-service.

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Mariana, a primeira capital

A 12 quilômetros de Ouro Preto está Mariana, fundada em 1696 e que exibe belos exemplares de arte sacra na Igreja de São Francisco de Assis, com trabalhos em pedra-sabão de Aleijadinho e painéis de mestre Ataíde. Na mesma praça está a Igreja de Nossa Senhora do Carmo, de 1784.

A maior atração da cidade é o órgão alemão de 942 tubos, fabricado em 1701. Fica na Catedral Basílica da Sé, onde ocorrem concertos regulares às 11h das sextas-feiras e ao meio-dia dos domingos. Os lustres são de cristais da Boemia e os altares ornados por Aleijadinho.

Pode-se visitar a casa onde morou Cláudio Manuel da Costa, autor de “Vila Rica”, obra em que narra o encontro de diferentes culturas na busca do ouro em terras mineiras. Ao lado de Alvarenga Peixoto e Tomás Antonio Gonzaga, articulou a Inconfidência Mineira. Preso, matou-se ao saber da sua sentença de degredo na África.

Mariana foi a primeira capital do Estado e pode ser visitada a pé. Aproveite para comer pão de queijo. Dizem que o de lá é o melhor das Gerais. A conferir.

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