“Nos tempos em que o cerrado era área hostil, pois só os caçadores e aventureiros ousavam cruzar em lombos de tropa o trecho desabitado que, como diria Machado de Assis, um campo mais ou menos infinito entre Bauru, Avaré e Botucatu, onde as suçuaranas reinavam absolutas, contava meu finado pai que, certa vez, quando ainda era um adolescente, na companhia de meu avô, um tio e mais dois primos resolveram fazer uma caçada nos campos do rio Claro. Prepararam as matulas, bruacas e os cargueiros, escolheram os animais de monta cujo critério era o andar macio, sereno e resistência para longas caminhadas, características próprias dos muares.
No dia combinado, logo nas primeiras cantigas do galo, os caçadores puseram-se de pé e antes da cinco da manhã todos estavam reunidos para partida. Montarias bem forradas, já que a caminhada era longa, grandes espingardas nas cabeças dos arreios com os canos voltados para o chão para prevenir possíveis disparos acidentais, capas e guampas nas garupas, dois cavaleiros na frente, seguidos pelos animais de cargas e mais atrás os outros três.
A ausência de cachorro nesta comitiva era explicada pela modalidade de caçada que seria feita, que consistia em acampar na beira do rio e aguardar a presença do animal a ser abatido. Para isso era procurado um barreiro, que nada mais é que um buraco no barranco da margem do rio, onde os animais se espojavam e lambiam as paredes dos barrancos para suprir suas necessidades de ferro e sal.
Na região onde o rio Claro deságua no rio Turvo, a vegetação de cerrado dava espaço para a Mata Atlântica, lugar preferido para refúgio dos animais selvagem. Mesmo os animais típicos do cerrado como jaguatirica, tamanduá, lobo, veado e outros, procuravam água para beber e se banhar, por este motivo era comum encontrar por ali alguns barreiros.
E foi num desses barreiros que nossos caçadores resolveram acampar. Como não existia barracas nos moldes de hoje, fizeram um abrigo com algumas varas e folhas de coqueiros, um jirau para dormir e ali ficaram uns oito dias pescando e caçando.
Numa noite de lua clara, quando dormiam, um deles acordou com um esturro muito próximo do rancho e por entre as folhas de coqueiro, que serviam de parede, deu uma espiada na clareira que circundava o acampamento, lá estava o que eles mais esperavam, uma enorme onça pintada que lambia o barranco esbranquiçado do barreiro.
Misturando medo e euforia, chama um companheiro que dormia a seu lado. O companheiro observa boquiaberto, assistindo o movimento da rainha do cerradão, que apenas lambia o barranco e às vezes rapava com os dentes de baixo pra cima, enquanto mexia o rabo lentamente. Ainda sonolento, o caçador que acordou com o esturro da onça, coçando os olhos num bocejo, exclamou:
- Que ‘belezura de alimar’!
Sem muito sacrifício, alcançou a cartucheira pendurada numa forquilha acima do girau que servia de enxerga para o grupo de caçadores metendo os canos sobrepostos por entre as folhas de coqueiro, uma ínfima distância de seis braças separavam onça e caçador. Quando ajustou a mira, disparou, lançando uma língua de fogo com tamanho impacto que o pobre animal foi projetado contra o barranco.
Enquanto o grupo de caçadores se punha de pé despertados que foram pelo estampido, o felino se refez do susto e do baque que sofrera e com dificuldades deixa o trágico lugar, embrenhando-se na mata ciliar que cobria as margens do rio Claro para ganhar as macegas dos campos e sua vegetação rala, de árvores baixas e tortas entremeado de algumas árvores grandes e frondosas como jatubazeiros, angicos, copaíbas e pequizeiros, deixando para traz um rastro de sangue.
Os dois caçadores donos da arte correram para o barreiro para ver de perto o tamanho do estrago. Ao chegarem, encontram apenas a alvura do saibro esborrifado de vermelho e um risco entrecortado que gotejava mato a dentro. Pelo inusitado da caçada e o ímpeto próprio dos jovens, resolveram ir atrás daquela que julgavam ser presa fácil, pois deveria estar morta a poucas braças dali, baseados pela quantidade de sangue que demonstrava estar perdendo.
Confiando apenas no clarão da lua, embrenharam-se na mata, andaram uns 30 metros e encontraram um espojado e muita marca de sangue, seguiram em frente, sempre guiados pela sinistra marca que o pobre animal agonizante deixava pelas folhas secas e capins que tornavam-se fulvos sob o luar, mais uns 30 metros de caminhada pela mata e outro sinal de parada, onde a onça espojou deixando sinais de sangue e das afiadas garras nas areias brancas do cerrado.
Antes de continuar a perseguição ao animal ferido, um dos caçadores ponderou:
- Acho melhor a gente voltar para o acampamento, pois caso alcancemos essa onça, mesmo ferida, ela nos ataca e basta uma só patada para liquidar um de nós.
E assim o fizeram. Voltaram para a cabana e quando clareou o dia, de posse de facão e espingarda, voltaram à fatídica perseguição pelo mesmo trajeto. Ao passarem pelo segundo espojado, observaram atentamente os sinais das garras deixado no chão, avaliaram novamente o perigo e com os cuidados redobrados seguiram em frente, mais uns 15 metros e lá estava o alvo perseguido já sem vida, e com parte da barrigada exposta, pois a carga de chumbo grosso havia concentrado na barriga da onça, cortando o couro e deixando alguns palmos de tripas dependurados.”
Lázaro Carneiro é mestre do saber e contador de causos