Imagine só, o futebol - oh, essa caixinha de surpresas! - também metido em corrupção. É a “banalização do mal”, como dizia Hanna Arendt. Voltamos ao tempo em que os dirigentes se esmeravam na propina aos “homens de preto”. A diferença é que naquela época a intenção não era o enriquecimento sem causa, como agora. A finalidade era mais altruística e havia uma certa ética. Pagava-se para obter uma ajudazinha discreta, apenas para não cair para a segunda divisão, ou, então, para ascender à Especial.
No final dos anos 60 eu quis fazer uma grande reportagem com o Lito Avallone, sob o título “O comprador de juízes”. Ele era irmão do Nicolinha e amigo de todos os “referees”, como diziam os “speakears” esportivos. Tinha uma cadernetinha com o nome e o telefone de todo o elenco de apitadores da Federação Paulista de Futebol. Um deles ficou famoso porque quase morreu linchado em Marília. Cedeu ao assédio irresistível do Lito. Roubou descarado para o Noroeste. Depois do jogo o juiz correu para o vestiário, mas a multidão pulou o alambrado e o descobriu escondido dentro de um armário. Quando a polícia conseguiu resgatá-lo da turba ululante já estava bem amarfanhado. Minha matéria não saiu por causa dos recatos de cartola do Lito Avallone. Acabou levando seus segredos para o túmulo. Quantos comprou? Quanto pagou? Ninguém jamais saberá.
Pensei que a coisa tivesse melhorado com o avanço tecnológico, a escuta fácil das conversas telefônicas e a melhor remuneração possibilitada a jogadores e árbitros. O cara viaja o Brasil e para o exterior com todas as despesas pagas e ainda ganha dois contos e quinhentos para trabalhar 90 minutos. A falta de ética deveria estar restrita às caneladas dentro de campo, carrinhos perigosos e os chutes de bico que comprometem a elegância do estilo. Decepção: eis que o esporte-rei também está bichado. Deus deixou de ser brasileiro e deve ter pedido para sair de campo tal o mar de lama que invadiu o País. Nem foi preciso um Katrina, Odete, Rita ou qualquer outra mulher-furacão para produzir tanto estrago. Polícia rouba polícia. Que Deus, pelo menos, se apiede de nós.
Por falar nisso, acaba de ser publicado na Inglaterra um livro chamado “Deus é brasileiro” (God is Brazilian) contando a vida de Charles Miller, introdutor do football association no nosso País. Fico sabendo pelo livro que esse esporte já teve início com propensões à maracutaia. O Foreign Office, que é o Ministério das Relações Exteriores inglês, nomeou Charles Miller vice-consul para aproveitar sua popularidade no Brasil e assim defender os interesses britânicos. Tudo aqui passou a vir da Velha Albion, a começar das estações de trem - desde os tijolos, o cimento e as ferragens, sem falar em locomotivas, trilhos, sinos e até o boné do guarda. Foi esse o gol de placa do Charles. Além, é claro, do “gol de charleira” (os brasileiros confundem com chaleira) que ele inventou ou trouxe de lá. Aquele em que se pega a bola no ar, de calcanhar.
Esse craque pioneiro casou-se com Antonietta Rudge, brasileira de pai inglês, mulher sofisticada, culta, pianista. Eis que um dia a dona pisa na bola e é pega na zona do agrião fazendo o jogo do adversário: foge para viver com o poeta Menotti Del Picchia, autor do célebre poema Juca Mulato (1917). O autor do livro, Josh Lacey, conta os pormenores do rompimento. Charles passou a fazer cera para não pagar o chamado débito conjugal. Segurava a bola, dava de bico para a lateral para passar o tempo e a esposa cair no sono. Coisas desse futebol chamado casamento... Preferia cuidar dos interesses britânicos e vivia envolvido com a papelada, cada vez mais fleumático e desinteressado. A regra é clara. Pênalti. Surgiu um poeta na área da Antonietta. Ele ainda não recitava “As mãos de Eurídice” mas tinha um repertório próprio e sabia todo o T.S. Elliot de cor. Mas o poetinha danado, líder da vanguarda modernista, manteve o casamento com a primeira mulher que vivia com as crianças na periferia. O casal extra-oficial em impedimento, foi rejeitado pela grã-finagem paulistana.
“God is Brazilian” é um livro que nasce ultrapassado no título. Foi. Ainda assim nos dá conta que Charles Miller, coitado, perdeu de goleada. Morreu traído e sozinho no Brasil. Hoje não passa de uma praça em frente ao Pacaembu que o Maluf aproveitou para fazer um piscinão em baixo.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC