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Acidentes domésticos são 5% da demanda do PAI

Lilian Venturini
| Tempo de leitura: 3 min

João Pedro, 3 anos, colocou um amendoim chinês no nariz. Thamyris, 2 anos, derrubou uma caneca com leite fervendo sobre si mesma. Leonan, 7 anos, engoliu uma agulha de costura. Destino dos três: hospital. Todos os meses, casos como esses, somados a quedas e afogamentos, representam 5% das ocorrências registradas no Pronto-Atendimento Infantil (PAI).

A porcentagem dobra se forem somados os casos de acidentes automobilísticos. As conseqüências podem ir do inevitável susto dos pais até a morte da criança.

“Quando saí do médico já tinha esquecido (o que aconteceu)”, lembra Leonan. Ele esqueceu e para felicidade dos pais nada grave aconteceu. A agulha não apresentou riscos e, dias depois, saiu pelas fezes.

O final feliz, no entanto, não é regra. De acordo com dados do Ministério da Saúde de 2001, 7 mil crianças abaixo de 14 anos morreram vítimas de acidentes naquele ano. Pelo menos 90% dos casos são evitáveis com simples medidas no dia-a-dia, segundo a organização não-governamental Criança Segura.

Um descuido de poucos segundos, por exemplo, causou há um ano queimaduras e internação de cinco dias para Thamyris Martyniak Brosco. Na ocasião, a mãe, dona de casa Aline Martynik, não percebeu quando a filha se aproximou da caneca com leite quente que estava sobre o fogão. “Virei para tomar um remédio e, de repente, ela veio, puxou (a caneca) e caiu em cima dela. Queimou da orelha até o peito. Quase morri do coração”, lembra ela.

Segundo a chefe do PAI, Sandra Caldeira Veloso Cariello, acidentes domésticos são o terceiro caso mais atendido e atingem principalmente crianças entre 1 e 5 anos, depois de problemas respiratórios e intestinais.

Dentre os acidentes, os mais comuns são as quedas, ingestão de substâncias tóxicas ou remédios e queimaduras como a de Thamyris. “Trauma abdominal causado quando a criança se segura na borda do tanque e ele cai sobre ela também é relativamente freqüente”, aponta Cariello.

Também fazem parte da lista a ingestão de objetos e histórias como a de João Pedro Custódio. Há três meses, enquanto se arrumava, sua mãe, a professora Dalcimary Pavani, o deixou comendo amendoim chinês. Por curiosidade, João Pedro colocou um deles em uma das narinas para ver se o alimento iria direto para garganta. “Ele não conseguiu tirar. Me senti impotente na hora. Então, fomos ao hospital e o médico foi quebrando o amendoim e tirando aos poucos. Levou cerca de duas horas e quase precisou de cirurgia. Fiquei com as pernas bambas”, conta a mãe.

Falta de informação motiva ocorrências

Nem conseqüência do acaso, nem erro dos pais. O maior causador de acidentes domésticos envolvendo crianças de até 14 anos seria a falta de informação, segundo Luciana O’Reilly, coordenadora nacional da organização não-governamental Criança Segura. “Não vemos como erro de alguém, porque quando se reconhece onde estão os riscos para as crianças, pode-se tomar as providências (para evitá-los)”, acredita.

No Brasil desde 2001, a ONG trabalha com a divulgação dos principais riscos a que as crianças estão expostas e propõe soluções. Atualmente, as atividades são desenvolvidas de forma direta nas cidades de São Paulo, Curitiba e Recife. “Capacitamos professores para que possam trabalhar com as crianças e com as famílias. Nossa intenção é sensibilizar e atingir uma comunidade local”, explica a coordenadora.

Como parte das atividades, na última semana a ONG, em parceria com a Johnson & Johnson, promoveu a segunda Semana Criança Segura, em São Paulo. O evento teve o objetivo de tornar pública a temática de acidentes envolvendo crianças e de ajudar pais e educadores.

Um dos destaques foi a exposição Gigantografia, que ilustra os riscos que uma casa pode oferecer. “Os ambientes têm dimensões maiores para os pais verem como a criança vê a casa”, diz O’Reilly.

Segundo ela, a cozinha é o cômodo que mais chama atenção, por ser um dos que mais apresentam perigos, como queimaduras e intoxicação. A partir de exposições como essas e da divulgação do que os acidentes podem provocar, a organização quer alertar para a importância da prevenção.

“Não temos cultura de prevenção no País. Prevenir é mais barato e, para a família e para a criança, é uma dor a menos”, lembra a coordenadora.

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