Quantos livros você já comprou este ano? De acordo com estatísticas, o brasileiro está cada vez menos investindo em leitura. Enquanto a economia do País cresceu 22% num período de nove anos, as vendas de livros caíram praticamente à metade. Para os pesquisadores Fábio de Sá Earp e George Kornis, isso significa que o Brasil vive hoje uma crise específica da indústria do livro.
Earp e Kornis, economistas, são autores da pesquisa “A economia do livro: a crise atual e uma proposta de política”, realizada através do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) a partir de encomenda do Bando Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).
Os pesquisadores mostram que houve uma queda expressiva na produção e comercialização de livros no País, principalmente se comparada ao desempenho da economia brasileira no mesmo período. “O grave é que a renda do comprador de livros caiu mais de 20% e apareceram novas necessidades de consumo, como a Internet e o celular”, diz Earp, em entrevista ao JC Cultura.
Outro dado alarmante da pesquisa é que apenas 10% dos livros nacionais dão lucro. A maior parte deles não gera retorno ao editor. Os poucos que têm grandes vendas cobrem as perdas da maioria. Com a tiragem é baixa por conta da saída inexpressiva, os livros têm seus preços aumentados - em geral, o valor de cada peça é calculado para que 40% da tiragem cubra os custos - ou seja, paga-se muito mais do que o produto realmente vale.
Pelos livros serem caros e, conseqüentemente, venderem pouco, a realidade da indústria do mercado livreiro torna-se um ciclo em que é difícil enxergar onde começa o problema e qual seria sua solução. “Para caberem nos bolsos do brasileiro, os livros teriam de custar um terço do que custam hoje”, frisa Earp.
O agravante é que, enquanto são demasiado caros para o poder aquisitivo brasileiro, a política governamental de compra desses produtos é insuficiente para atender às necessidades da população. A pesquisa dos economistas revela que, no mesmo período analisado, o governo reduziu suas compras em 58% - uma das piores políticas de bibliotecas públicas do mudo. Isso significa que há uma oferta global crescente e a capacidade de absorção de bibliotecas e do consumidor individual é cada vez menor.
“O que preocupa é quem quer comprar o livro não tem dinheiro e quem vai a uma biblioteca não acha o que precisa. Se atendermos só a estes (consumidores), o problema da indústria do livro no Brasil estará resolvido por uma década. Quem bota a culpa na falta de leitores está fugindo da questão principal - os leitores hoje não são atendidos”, avalia Earp.
A pesquisa dos economistas, portanto, não foca o problema do incentivo à leitura no País, mas sim a necessidade de aumento de vendas. “Os leitores não atendidos já existem: quem é que compra cópias de xerox nas universidades? Estima-se que para cada livro vendido outro é copiado”, calcula o pesquisador.
Caso não sejam tomadas medidas para reverter a crise, ele acredita que as conseqüências para o País serão bastante negativas a médio e longo prazos. “O Brasil continuará tendo o pior ensino do mundo, ou quase isso (parece que a Bolívia é um pouquinho pior). Temos estudantes em geral fracos porque os professores de primeiro e segundo graus são semi-analfabetos, pois não têm acesso a livros. A formação dos brasileiros continuará se deteriorando - e nós somos do tempo em que o ensino público era de muito boa qualidade em todos os níveis; hoje isso só é verdade nas universidades de uns poucos estados”, enfatiza Earp.
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Propostas
Para reverter o atual cenário editorial brasileiro, os pesquisadores Fábio de Sá Earp e George Kornis propõem medidas com o objetivo de atingir, em uma década, uma meta inicial de quatro a cinco livros por habitante por ano. A meta é baseada em índices de países europeus em que o livro é menos difundido, como Reino Unido, Itália, Holanda e Áustria.
Entre as sugestões, estão a implantação de um programa de apoio a bibliotecas universitárias e bibliotecas de referência do País (com dois terços dos recursos destinados à aquisição de livros), além da criação de um Fundo Nacional do Livro, alimentado por recursos do Tesouro e por um imposto sobre a atividade de pirataria (como sobre a tinta empregada em máquinas de fotocópias).
Earp e Kornis apostam também no subsídio para produção de livros técnicos de autores nacionais, a partir de recursos públicos e privados, e na criação de uma política de exportações de livros nacionais.
“A globalização é um processo de mão dupla. Se nós também entramos no mercado exterior, é um jogo igual. Se só editoras estrangeiras entram aqui, trata-se de colonização cultural. É o que acontece no mercado do futebol: Itália e Espanha estão cheias de jogadores estrangeiros, o que prejudica o desenvolvimento dos jogadores nativos - por isso suas seleções nacionais são muito fracas”, argumenta Earp.
Ainda segundo avaliação dos pesquisadores, o governo brasileiro teria de triplicar a quantidade de livros comprados por ano, já que suas compras foram reduzidas em 58% em nove anos.
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Bauru
Na opinião de profissionais que atuam em livrarias de Bauru, o preço do livro e a falta do hábito da leitura no Brasil são os principais motivos da queda das vendas.
Segundo Nilo Sérgio Alves Júnior, gerente de uma livraria localizada no Centro da cidade, o volume de vendas está estagnado há cerca de quatro anos. “É difícil vender livro. Tem de suar bastante. A cidade cresceu, aumentaram os números de habitantes, de escolas e de faculdades, mas o consumo de livros não aumenta”, revela.
Ele acredita que o produto precisa ser valorizado entre as pessoas, já que tem se tornado uma peça supérflua. “É comum ver uma pessoa se queixar por ter de comprar um livro para fazer um trabalho e sair daqui e comprar um tênis de R$ 200,00 para ir à escola. Ela não consegue enxergar valor no livro de R$ 30,00”, argumenta Alves Júnior.
José Itamar Lourenção, que tem uma livraria instalada no câmpus da Universidade Estadual Paulista (Unesp) em Bauru, afirma que as vendas de livros caíram cerca de 80% nos últimos quatro anos em sua livraria e que, dos mais de 3.000 alunos que estudam no local, apenas 10% compram livros.
“O motivo disso é que estamos em crise financeira. O livro para os alunos é secundário. Eles tiram xerox ou pegam na biblioteca porque sai mais barato. Há quatro ou cinco anos, quando um professor adotava um livro, eu vendia 70 exemplares. Hoje, eu vendo cinco e não faço mais estoque. É tudo sob encomenda”, conta.
Lourenção sugere medidas para baratear o produto, como a confecção de livros em papel de qualidade menor. “O importante é ter o material em mãos. Os preços estão muito altos”, avalia.