Um homem, de aparência humilde e frágil, era empurrado para fora do local por um segurança. A seqüência lembrou, em muito, filmes de faroeste antigos, quando algum freqüentador inconveniente era lançado para fora dos “saloons”. Não é exagero, pois o segurança o trazia pela gola do paletó puído e pela cintura da calça. Não ouve agressão física explícita, mas o homem mal conseguia manter-se em pé, e sua expressão era um misto de impotência e estupefação. Mas não foi essa a cena que me perturbou: Atrás do homem - e de sua “escolta” truculenta - vinham: uma mulher, com uma criança no colo e dois meninos, que não tinham mais que oito anos, assustados com o que viam à frente. Se estivessem lado a lado, talvez lembrassem “Os Retirantes”, de Portinari... Retirantes e, agora, retirados!
Não sei o que o homem fez para ser tratado de maneira tão grotesca e humilhante, diante de sua família, por um agente que era, fisicamente, o triplo dele. Pode ter tentado praticar algo ilícito ou ter se portado de forma inconveniente... Mas o eventual motivo não era o mais relevante na situação. O olhar dos meninos é que chamava a atenção!
Por alguns segundos, eu me coloquei na posição deles, com os olhos da criança, que eu fui, e do pai, que sou... Meu Deus! Creio que não deve haver maior dor para um pai minimamente consciente, que a de ser humilhado diante do próprio filho! E como deve machucar a alma de um filho ver o pai nessa situação! Some-se a isso o agravo de não ter como reagir ou de já ter perdido a capacidade de chorar ou gritar, e pronto: todos os ingredientes para a gente começar a perder a fé na sociedade e, até, na humanidade estão reunidos!
Apesar de toda a evolução, a sociedade continua a ser especialmente intolerante com a pobreza. Nela enxergamos culpa, incompetência, um fado ou um fardo. Tratamo-la com uma doença infecciosa ou contagiosa, da qual queremos distância, em vez de cura. Assim, ela se torna crônica, e, como tal, vira um negócio lucrativo para oportunistas inescrupulosos.
O olhar do homem tinha a expressão da humilhação; o da mulher, da rotina; o dos meninos, do susto; o da criança de colo, da mais absoluta inocência! Quatro estágios distintos de um destino que, com raras exceções, tende a ser comum e inevitável, como se também no mundo ocidental prevalecesse um sistema de castas.
É como se a humanidade fosse um mar, onde navegam embarcações, das mais simples às mais luxuosas: A pobreza flutua sem rumo, à deriva, sujeita às intempéries e monstros marinhos; agarrada à esperança de destroços, à mercê de piratas, e sem um porto que aceite sua bandeira...
Repito que não sei o que aquele pai fez para merecer ter sua imagem abalada diante dos filhos... Talvez, até, tenha provocado àquele limite! Mas se uma sociedade que tolera tantos erros e defeitos em seus filhos abastados não consegue dar esperança de melhores dias para os seus “enteados” mais humildes deveria, ao menos, proibir que os olhos dessas crianças assistissem a esse tipo de cena, fosse de pai ou mãe, para que elas não percam esse horizonte! Senão, esses mesmos olhos correm o risco de se fechar progressivamente, até que, um dia, não vejam mais nada! Depois, talvez percam outros sentidos e sentimentos... Quem sabe, um dia, concluam que, perante essa sociedade, suas vidas não têm nenhum valor... Quem sabe, a partir daí, eles não dêem mais valor às suas vidas... Nem à do próximo!
É assim que tudo começa e, dificilmente, termina bem... Portanto, pai ou não, mãe ou não, é preciso enxergar adiante, no presente, para não ser artífice, cúmplice ou vítima dessa cegueira, no futuro!
Adilson Luiz Gonçalves - engenheiro, professor universitário, articulista e poeta e autor do livro: “Sobre Almas e Pilhas”