Apenas 0,1% ou exatas sete pessoas. Este percentual irrisório foi o total dos candidatos selecionados, entre 7 mil inscritos, para a segunda fase do concurso da Câmara Municipal de Bauru, realizado no mês passado, para as vagas de recepcionista e assistente legislativo.
O pequeno grupo - cinco concorrendo às três vagas de assistente legislativo e dois às duas vagas de recepcionista - representa os únicos que, pelo regulamento do concurso, obtiveram as exigências mínimas para disputar a segunda fase, constituída por uma prova prática em data ainda a ser marcada. “Utilizamos dois critérios, que era o de chamar os 30 primeiros colocados com índice de acerto das questões igual ou superior a 60%. Entretanto, só sete reuniram condições”, explica Irineu Azevedo Bastos, presidente da comissão organizadora do concurso do Legislativo.
O concurso foi organizado pela própria Câmara Municipal e aplicado através de uma prova de 50 questões distribuídas entre diversas disciplinas, como português, matemática, história de Bauru e atualidades. Apesar de reconhecer que o nível de dificuldade e a nota de corte do exame foram elevados, Bastos considera que o resultado do concurso reflete a atual conjuntura socioeconômica nacional, especialmente o desinteresse pela informação.
“O teste demonstrou que muitas pessoas não se interessam em informar-se, principalmente em questões sobre atualidades. Por exemplo, a maioria não soube responder qual a nacionalidade da tenista Maria Sharapova”, disse, referindo-se à esportista russa. E acrescentou: “Já os conteúdos dos testes de matemática e português foram tirados dos compêndios de segundo grau, pois um dos requisitos para os cargos era ter ensino médio. Ou eles estão exigentes demais ou algo está errado. Além disso, pouca gente tem interesse sobre a história bauruense e, mesmo sendo questões difíceis, eram apenas cinco.”
Para Bastos, mesmo sendo um número pequeno de aprovados, o resultado não assusta. “É algo até já tradicional na Câmara, pois em outro concurso do gênero o índice de selecionados foi o mesmo: de cerca de 1.500 pessoas, apenas sete tiveram condições de passar à outra fase”, recorda o presidente da comissão.
As exigências do concurso também ajudam a explicar o alto índice de abstenção na data da realização da prova. Dos 7 mil inscritos - 3.800 para recepcionista e 3.200 para assistente legislativo -, apenas 3.150 - 45% do total - compareceram ao exame. “Muitos atraíram-se pelos benefícios oferecidos pelos cargos, como a estabilidade de emprego, e pelo fato da inscrição ter sido gratuita, mas uma grande parte inscreveu-se somente para ver como era”, ressaltou.
Além disso, Bastos considerou que o objetivo do concurso foi atingido. “Conseguimos selecionar, pois essa é a meta essencial de um concurso. No entanto, ele revela que a iniciativa de promover o exame foi uma aventura em virtude das dificuldades encontradas pelo Legislativo para sua realização. “Fomos pegos de surpresa com a quantidade de inscritos e não estávamos estruturados para fazer concursos. Foi uma luta efetivá-lo e creio que em uma próxima oportunidade teremos de destinar a tarefa a instituições especializadas”, argumentou.
A reportagem do JC ouviu um dos selecionados à próxima fase do concurso, que pediu para não ter o nome divulgado. Ele afirmou não estar espantado com o baixíssimo número de aprovados em virtude de ter presenciado o “descaso” de muitos concorrentes com as provas. “Muitos não levaram a sério”, destacou. E completou: “Acho que se a inscrição não tivesse sido gratuita a preocupação das pessoas teria sido bem diferente.”
Ele também classificou o nível do exame como difícil por exigir o conhecimento de questões muito específicas. “Foi uma prova realmente bem elaborada, mas que apresentou perguntas que poucas pessoas saberiam, como quem eram os revolucionários que passaram por Bauru no ano de 1924?”, exemplifica o “felizardo”.