É mais cômodo dizer que vou votar a favor do desarmamento da população civil. Dar uma de humanista-pacifista e politicamente correto. O “sim” pelo “não” comércio de armas de fogo e munição. Mas o que eu quero mesmo, cá pra nós, é nem ir votar. Infelizmente sou obrigado. Tenho que apresentar o comprovante do TRE no Departamento do Pessoal da Universidade se quiser receber o salário. O Estado não tem o direito de interferir na vontade dos cidadãos de comparecer às urnas. E já que o Estado não protege adequadamente o cidadão, teríamos o direito de nos proteger como achar melhor. Ou não?
Há muitos anos consegui satisfazer meu imaginário ainda impregnado com os filmes de detetive. Comprei uma pistola automática. Pratiquei tiro ao alvo e, satisfeita a curiosidade, esqueci da arma. Nem sei em qual armário minha mulher a escondeu. Concordo que limitar drasticamente o arsenal doméstico pode contribuir para a redução dos homicídios em conflitos determinados. Coisas assim como crises domésticas, desavenças entre vizinhos, discussões no trânsito. Um outro objetivo, óbvio, dramático, é evitar os acidentes possíveis, e não raros, em casas onde há crianças e armas. Mas, a única coisa certa é que o resultado dessa consulta popular não vai reduzir os arsenais nas mãos dos marginais. Bandido não compra AK-47 em lojas comerciais. Creio que estão simplificando demais uma situação complexa. Precisamos primeiro aumentar as oportunidades de emprego. Aos 12 anos o garoto da favela pode ganhar 100 reais por mês e levar alguma comida para casa trabalhando como “fogueteiro”. Sua missão é vigiar a entrada da favela e acender o pavio do Caramuru assim que a polícia subir a ladeira. Com 16 anos ele pode ser promovido a “avião” para levar a droga aos pontos de venda. Se aos 20 ainda estiver vivo, tem a chance de chegar a gerente do ponto. Pelo menos até que outro chefão tome conta do pedaço e resolva limpar o caminho. E que carreira melhor que esta o governo oferece aos jovens? Sim ou não, esse referendo em nada resolve nossas mazelas sociais. Parece que Lula quer apenas cumprir uma obrigação sem empunhar bandeira alguma. A falta de adesão dos ministros a esse referendo (com exceção do ministro da Justiça) alimenta os mal entendidos.
Nos últimos dias tenho notado um tiroteio entre os prós e os contras. A Frente do Direito à Legitima Defesa representou contra TV Globo sob o argumento de que a novela Bang Bang, do Mário Prata, é contra o comércio de armas e munições. Talvez porque a heroína da história, representada por Fernanda Lima, em vez de resolver suas pendengas no tiro prefira o joelhaço na virilha do bandidão. Por sua vez a Frente por um Brasil sem Armas acusa a emissora de favorecer os fabricantes de armas com esse bang-bang iniciado justo às vésperas da consulta. Um empresário amigo que reputo como muito esclarecido, colocava sua opinião mais ou menos assim: “claro, sou a favor, mas será que esse governo não está querendo desarmar os fazendeiros para ajudar as invasões de terras?” Disse a ele para ficar descansado porque o Lula não tem tanta competência.
Em 1963 votei num referendo. O governo queria saber se o povo era pela continuidade do regime parlamentarista que ele mesmo impôs. Nem precisava perguntar. O “não” foi quase unânime. O parlamentarismo havia sido uma saída para retirar os poderes presidenciais de João Goulart, vice do renunciante Jânio Quadros. Com a volta do presidencialismo os militares derrubaram Goulart. Acusaram-no de querer implantar uma República Sindicalista de esquerda. Uma bobagem. Depois, em 1993, quiseram que escolhêssemos entre a monarquia, o parlamentarismo ou o presidencialismo. Foi um plebiscito que, em latim, significa “ouvir a plebe”. Referendum os romanos faziam para passar a responsabilidade ao povo. No que der errado a culpa é da plebe ignara que assim escolheu. Por que não perguntam se os cidadãos querem que os congressistas e o presidente da República antecipem o fim dos seus mandatos para que sejam marcadas novas eleições gerais desde já? Eis a solução inteligente para resolver a crise política que encalacrou o País.
O autor, Zarcillo Barbosa, é jornalista e colaborador do JC