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Aviadores relembram heróis anônimos

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

Faltando um ano para a comemoração do centenário do primeiro vôo publicamente registrado de um avião, os bauruenses Edison Sanches e Rubens Ferreira reúnem histórias saudosas para ressaltar a importância de aviadores brasileiros que se tornaram heróis nacionais durante a 2.ª Guerra Mundial.

Os bauruenses trabalharam juntos no Campo de Marte, em São Paulo, sobretudo em inspeção e manutenção de aviões de combate. Rubens, que atuou na área administrativa, ficou por lá somente um ano e dois meses e Edison permaneceu desmontando e reparando os equipamentos de asas duras por 12 anos, período em que conheceu vários integrantes do grupo de combatentes que atuou em campanhas militares na Itália, onde o Brasil se juntou a aliados contra os alemães.

“23 de outubro não pode passar despercebido de muitos brasileiros. O sentimento de nacionalidade cada vez mais distante das novas gerações precisa ser resgatado e estamos aqui para contar que temos combatentes que são orgulho da Nação, inclusive com bauruenses como Orlando Vissoto, que atuou em 64 missões militares, muitas em território italiano na 2ª Guerra”, cita Sanches.

Rubens Ferreira recorda dos ensaios de vôo e do trabalho nas aeronaves. “O Campo de Marte era a unidade de apoio mais pesada da Força Aérea Brasileira (FAB). A gente desmontava o avião inteiro à procura de pontos de ferrugem ou avarias na fuselagem. Era uma detalhada inspeção de corrosão e rachaduras em aviões de caça como o P-40, P-47, os jatos ingleses Gloster F-8 e os de bombardeio com o A-20, B-25, B-26 e B-17. Isso precisa ser resgatado”, conta.

Com o fim da guerra, passaram a conviver com os pilotos de combate que vieram para o Campo de Marte. “Eles integraram o grupo Senta a pua!, que tinha seus símbolos pintados nos aviões de grupo de caça na Itália”, lembram.

Entre os mais conhecidos, eles citam Joel Miranda, com 31 missões de guerra, que foi derrubado em combate por alemães em fevereiro de 1945, mas sobreviveu, a exemplo de Roberto Brandini, participante de 28 missões. “O Brandini foi atingido e levado por alemães para um hospital-acampamento. Como falava alemão, conseguiu amizade com o médico deles e, com isso, soube na véspera da invasão dos americanos, quando foi resgatado”, conta Sanches.

Eles também mencionam, entre os heróis de guerra na aviação que conheceram, Cornélio Lopes (61 missões), Leon Roussoulieres Lara de Araújo (80 missões) e o destacado tenente Menezes, treinado em base militar americana para atuar na 2ª Guerra.

Tenente Menezes

“Quando penso nos tempos da Segunda Grande Guerra (1939-1945) recordo a saga de um jovem goiano de Jataí, enviado aos Estados Unidos para fazer o treinamento de piloto militar, chamado Diomar Menezes”, conta Edison Sanches.

Naquele período, a guerra na Europa piorava e pairava a impressão de que a Alemanha nazista ia dominar o mundo. No Brasil, o governo do presidente Getúlio Vargas vinha sendo pressionado, interna e externamente, para se definir. “Assim foi formada a Força Expedicionária Brasileira” (FEB) que foi lutar na Itália, incorporada ao 5º Exército Americano. Em 1943 foi criado também o 1º Grupo de Aviação de Caça, que após intenso treinamento nos Estados Unidos foi enviado à Itália e incorporado ao 350th Fighter Group (unidade de elite da Força Aérea Americana, equipada com aviões Thunderbolt P-47)”, lembra. Sanches.

No auge do conflito, o jovem aspirante e aviador Menezes, cita, foi convocado para ir direto dos Estados Unidos para a Itália. “No grupo brasileiro, ele foi designado para voar na Red Flight. Tornou-se muito popular pelo jeitão todo especial de viver. Parecia não dar bola para nada, nem mesmo quando seu avião era atingido em combate. Levava tiros e calava a boca. Regressou muitas vezes com seu P-47 avariado, com buracos maior que uma bola de futebol de salão. A ordem no esquadrão era regressar à Base em Pisa, caso fossem atingidos, não importando a aparência do impacto. Era uma regra de segurança, mas Menezes muitas vezes agiu diferente”, conta Sanches.

Durante os combates, alguns pilotos fizeram pouso de emergência na base italiana em Pisa, com os tanques esvaziados ao serem atingidos por tiros de metralhadoras no tubo de gasolina. Outros tiveram os cabos de comando avariados e, se continuassem voando, poderia ocorrer uma ruptura total do sistema. “Nosso Diomar Menezes não acreditava no azar nem cumpria tal ordem. As regras existiam. Regras, não, ordens. Deviam ser cumpridas. Quando Menezes era surpreendido, baixava a cabeça e jurava não repetir mais aquilo. Juramento falso!... Na primeira oportunidade, lá vinha ele com o P-47 atingido pela anti-aérea. Nova repreensão. Eta goiano cabeçudo, dizia o comandante do Grupo, Major Nero Moura - (62 missões de guerra) - que como combatente sabia entender bem essa atitude”, acrescenta.

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