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Juventude transviada


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Nos anos de 1950, a delinqüência juvenil era abordada pelo cinema como uma coisa quase romântica, capaz de transformar atores como James Dean, Paul Newman e Marlon Brando em ícones para os jovens de várias gerações. Seus fãs queriam, apenas, romper com o conservadorismo. Muitos, aliás, continuaram a manter os mesmos hábitos e aparência, como se acreditassem que, assim, seriam como eles, ou, quem sabe, não envelheceriam: rebeldes, mas, quase sempre, inofensivos.

No início da década de 1960, as gangues de Nova Iorque ganharam status lírico no filme “Amor Sublime Amor” (“West Side Story”, EUA, 1961), com suas coreografias modernas e vigorosas, e a fantástica trilha sonora de Leonard Bernstein. Era um “Romeu e Julieta” contemporâneo! Eles lutavam contra a falta de perspectiva do subúrbio, ou, simplesmente, pelo direito de amar.

Dez anos depois, a rebeldia quase inocente foi substituída pela crueldade alegórica, sádica e psicótica, no “Laranja Mecânica” (“A Clockwork Orange”, EUA, 1971), de Stanley Kubrick. Agora, eles só queriam tomar seu “leitinho”, e se divertir, torturando, estuprando ou matando.

O início de 1980 trouxe o “Blade Runner” (EUA, 1982), de Ridley Scott, sombrio e caótico. Nele a gangue era de “replicantes”, física e mentalmente superiores, mas propositalmente efêmeros. Lutavam e transgrediam na ânsia de descobrir um modo de viver mais! Mais eles eram um risco aos “naturais”.

E assim, até o final da década de 1990, as gangues foram tema de vários filmes, alguns bem-intencionados, outros pseudomoralistas, vários sensacionalistas, abusando de histeria e violência. Os “mocinhos” e “mocinhas” lutavam para fugir desse círculo vicioso, enquanto outros suplicavam para entrar e, assim, ficarem “protegidos” pelos líderes temíveis e impiedosos. Curiosamente, o fascínio ficava por conta dos vilões! Assim, por todo o mundo, novas gangues surgiram, imitando e tentando sobrepujar seus “ídolos”. Incorporaram seus “princípios”, roupas, trejeitos, músicas.... O mesmo ocorreu em relação aos “hooligans” ingleses, que transformaram a festa do esporte num espetáculo de selvageria. A violência, gratuita, de poucos virou “manifestação de protesto social”, com prejuízo para muitos, principalmente inocentes!

O início do Século XXI voltou no tempo, para tirar todo o falso glamour e romantismo dessa delinqüência coletiva, no “Gangues de Nova Iorque” (“Gangs of New York”, EUA, 2002), de Martin Scorsese.

Mas um filme, do final dos anos de 1970, foi fundo na análise crua das gangues de rua: “Os Guerreiros da Noite” (“The Warriors”, EUA, 1979), de Walter Hill. Pela Violência? Não! Ela já estava banalizada, nas séries televisivas, desenhos de luta, videogames, guerras ao vivo... Esse filme impressiona pelos primeiros minutos, quando o líder de uma das principais gangues de Nova Iorque conclama seus adversários, inusitadamente reunidos no Central Park, a um pacto de união, em nome de um ideal maior: juntos, dominar a cidade!

A reação de todos foi de aclamação, até que um dos líderes atira e mata o orador, colocando a culpa em outra gangue!

O que se vê, hoje, é que alguns fizeram das gangues e torcidas organizadas meios de vida e morte, esquecendo cidadania, da religião e de tudo o que há de minimamente racional, para seguirem seus mais baixos instintos, ou, servilmente, os de seus líderes. Hostilizam inocentes, só andam em bandos e, até, marcam, pela Internet, confrontos armados, pré-históricos. E quando se encontram transformam áreas públicas em praças de guerra. Levam suas revoltas das arquibancadas para as ruas, e das ruas para as arquibancadas.

Parece que estamos vendo um filme cujo roteiro reúne tudo o que os anteriores tinham de pior, e que, a qualquer momento, pode ser interativo! Só as lágrimas das mães dão algum ar de humanidade às cenas! Só que quando já é tarde demais...

Uma parcela de juventude sem rumo, transviada, desviada e transtornada, capaz de enfrentar a morte por um time, um líder truculento, uma porção de droga, uma fé alienada ou um ideal sem sentido; mas sem coragem para abraçar a vida e mudar seu destino, tirando-o das mãos dos outros!

É preciso mudar esse “filme”, mas para tanto é preciso de melhores roteiristas, diretores e cenários. Quem sabe, assim, o papel de mocinho se torne mais atrativo e promissor que o de bandido...

O autor, Adilson Luiz Gonçalves, é engenheiro, professor universitário, articulista, poeta e autor do livro: “Sobre Almas e Pilhas”, Editora: Espaço do Autor - e-mail: algbr@ig.com.br

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