Brasília - Os líderes da campanha pelo “sim” no referendo apontaram ontem a crise política e as acusações contra a gestão Lula como um dos fatores que interferiram no resultado da votação. O governo era um dos apoiadores da proibição da venda de armas e, na avaliação deles, a frente do “não” utilizou isso e a falta de investimentos em segurança para tentar fixar a idéia de que a administração petista queria tirar foco do escândalo do “mensalão”.
“Quem votou ‘sim’ votou por uma ojeriza às armas. O voto do ‘não’ acabou sendo um voto de capitalização do desencanto, do protesto, da falta de confiança no governo, nas instituições, na polícia, na segurança, no que está aí”, afirmou Rubem Cesar Fernandes, coordenador da ONG Viva Rio. “O índice de reprovação do Lula e de aprovação do ‘não’ são muito semelhantes. O referendo, se tivesse acontecido dois meses antes ou três meses depois, era outra coisa. O contexto político prejudicou muito e a campanha do ‘não’ soube explorar isso com muita competência”, disse Denis Mizne, diretor-executivo do Instituto Sou da Paz.
Ele ressalva, entretanto, que essa opinião não é uma rejeição ao apoio governamental. “O grande adversário do ‘sim’ não foi o ‘não’, mas o PT e o governo”, afirmou Raul Jungmann (PPS-PE), deputado da frente favorável à proibição.
Os defensores do “sim” no referendo avaliam que a segurança pública vai pautar as eleições de 2006 e que a discussão do tema fez do referendo uma iniciativa útil - apesar dos recursos gastos. “Mas quem obrigou a ter referendo foi a turma do ‘não’, que impediu a aprovação no Congresso. Quem criou isso foram eles”, afirmou Mizne, acrescentando ainda que a luta pela proibição do comércio de armas começou em 1997, com as ONGs, e depois ganhou fôlego no governo de Fernando Henrique Cardoso.
Eles também apontaram falhas na campanha de TV e tempo curto para discussões como razões que prejudicaram a frente do “sim”. “É lamentável que tenha sido na correria, um tempo tão curto. A crise política abafou esse assunto. Formar uma opinião em 20 dias não é fácil”, disse Fernandes. “No meio da guerra, normalmente as pessoas tomam decisões meio irracionais”, disse Mizne.
O representante do Sou da Paz disse que vai propor ao Congresso um pacote pela diminuição do contrabando e de responsabilização da indústria de armas pelas vendas fraudulentas. “Quero saber se a bancada do “não’ vai defender a indústria ou a população”, disse. Uma idéia, afirmou, é proibir a exportação de armas “para países que não têm controle, como Paraguai, Bolívia, Colômbia, Uruguai, Argentina”.
Assim, impediria que elas retornassem contrabandeadas. Jungmann disse ser favorável a discutir a vinculação de recursos para investimentos em segurança, como já ocorre com as áreas de saúde e educação. Confirmada a vitória do “não”, ele dizia temer somente a abertura de espaço para uma “maré conservadora”.
Líder da frente parlamentar Brasil sem Armas, Renan Calheiros (PMDB-AL), presidente do Senado, afirmou que “pesou na decisão” do referendo a “omissão voluntária do governo federal em relação aos investimentos na área de segurança pública”. O prefeito de São Paulo, José Serra (PSDB), disse ontem que a votação no “não” é um protesto da população contra a política de segurança pública. Ele disse ter escolhido votar “sim”.